sexta-feira, 8 de julho de 2011

Alexandre Lyrio: repórter do caderno Mais, da parte BaSal (Bahia e Salvador), do blog Moqueca de Fatos e ex-faconiano.

José Calasans e Alice Daltro

Formado em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Alexandre Lyrio (alexandre.lyrio@redebahia.com.br), repórter do Mais do Correio, da parte editoria chamada BaSal (Bahia e Salvador), concedeu-nos uma breve entrevista para este trabalho acadêmico.


Além de seu trabalho convencional como repórter, embora, ultimamente tenha feito mais matérias do tipo “frias” (especiais), escreve no blog Moqueca de Fatos, do Correio 24h. 


Em seu ambiente de trabalho diário, por meio da boa vontade de seu chefe, Alexandre tira alguns minutos de sua rotina de repórter, para nos dar sua opinião e expor experiências deste universo de nosso interesse, estudantes de jornalismo.


Um fato causou uma maior identidade com o repórter, além da sua gentileza em dispor de alguns minutos tão preciosos neste trabalho de causar cabelos brancos, como brincou ele, ele já foi aluno de nossa faculdade, portanto, viveu quase tudo o que viveremos, quanto a disciplinas, experiências e descobertas profissionais, como verão no decorrer da entrevista.


Quando você estudou na Facom?
Bem, eu entrei na Facom, no segundo semestre do ano de 1999.


Começou como estagiário no Correio?
Não. No segundo ou terceiro semestre (não lembro bem) eu comecei a estagiar na TV Aratu com esportes. Na verdade, foi um estágio mais profissional, pois, comecei já como repórter de esporte e trabalhei por lá, durante cinco anos, nessa de “estagiário”.
Então, um belo dia surgiu um teste no Correio da Bahia, que Pablo Reis me avisou sobre. Fiz o teste e hoje estou aqui, muito feliz com a decisão que tomei, de ter saído da televisão, embora eu goste muito do texto de televisão, que nos dá mais liberdade, mas é no impresso que ocorre o jornalismo mais intenso e por isso permaneço aqui no Correio*.


A partir de suas experiências, diga-nos, como entende um furo jornalístico?
Nos jornais impressos de hoje, o furo jornalístico é o que há de mais importante, em todos os sentidos. Posso dizer que é a base de sobrevivência, basicamente, o jornal vive de furos.
Afinal, o que segura um jornal impresso, como o Correio*, são matérias bem pensadas e bem elaboradas, é disso que vivemos, de ter boas idéias. Estamos sempre “quebrando a cabeça” para ter boas pautas e assim ótimas matérias, trazendo bons resultados para o jornal e um conteúdo de qualidade para o leitor baiano.
Mas, o furo em si, também é uma questão de sorte, não só de competência.
Outro dia, por exemplo, estive no Farol da Barra, fazendo uma matéria do tipo “fria” sobre turismo. Levei um rapaz daqui que é bem branco e aparenta alguma descendência com uruguaios, para se passar por turista, pois, pretendíamos registrar a diferença de tratamento dado aos turistas em relação aos baianos, tanto na questão econômica, quanto social mesmo, mas tivemos de pará-la no meio, pois, ocorreu um tiroteio lá mesmo (considerado como furo).
Considero necessário que o jornalista possua uma agenda de fontes “azeitada”, como costumamos dizer, para produzir bons furos de reportagem. É muito freqüente o recebimento de ligações dessas fontes, para “salvar” o nosso trabalho.
Ouve também um caso de matéria sobre um roubo a uma joalheria, que só por ter conversado um pouco com o segurança, descobri que este era um orientador de clientes e que recebia um salário por isso, logo, tal curiosidade já me fez ter mais uma pauta.
É disso que o jornal necessita para se firmar, boas fontes e tino jornalístico por parte dos repórteres.


Há contrastes entre o jornalismo acadêmico e o jornalismo do seu cotidiano?
Eu considero que na Facom, temos muita teoria e isto não é ruim, afinal, nos dá uma noção muito boa do que é esta atividade tanto ideologicamente, quanto no decorrer da história e toda a teoria que vocês estão estudando. Acredito que faltam mais disciplinas práticas. Eu gostava de estudar semiótica, eu me interesso pela forma de visão que você adquire a respeito das coisas. A disciplina de estética, também não fica atrás. Ambas foram muito úteis.
Lembro que tinha um professor do tipo “linha dura” na Facom, um gaúcho, que já deve ter saído de lá. Esse professor era bem experiente, contudo, muito teórico e com isso, nós estudantes, acabávamos ficando meio que sem muita noção do mercado de trabalho.


Qual o público alvo do Correio, para você?
Como não sou dessa área, que envolve pesquisa e estatística, o Editor chefe é quem poderia responder melhor a isso, pois sou um mero repórter. Mas, sei que se fala muito de que é feito para classes C e D e pior é que falam, ou melhor, acusam o Correio de ser um jornal sensacionalista. Eu discordo disso completamente. O Correio consegue avaliar o que vale um maior aprofundamento e o que não vale tanto assim, normalmente nós somos bem equilibrados nesse sentido. Sabemos usar de chamadas, títulos bem pensados/criativos de forma vendável, afinal, o jornal precisa ser vendido, pois, somos uma empresa acima de tudo.
A abertura do caderno Mais não tem anúncio algum, vale ressaltar. Mas é claro que, às vezes, cometemos erros, deixamos de ir mais fundo no que devíamos e podemos deixar passar algo que deveria ser mais bem explorado por nós. Somos versáteis, pois, o nosso formato gráfico, permite que coloquemos no 24 Horas as matérias menores, com textos menos aprofundados, com uma foto ruim ou até mesmo sem fotos. Também, quando ocorre, ao invés de não ter foto, termos uma boa foto (bem tirada e ou chamativa) nós usamos da Página 3, afinal, é onde o leitor ao abrir o jornal irá se deparar logo de cara, trazendo-o para a leitura da respectiva matéria e das outras.
Enfim, o que quero dizer com isso é que o Correio* vence dos demais, pois, consegue vender bem as matérias, com chamadas criativas e fortes na capa. Quanto ao público, acredito que varie entre classes B e C. Mas é muito relativo, mesmo. Por exemplo, há muitas pessoas de classe A ou B que não leem o caderno Vida, pois, não se interessam por ele.
Uma experiência própria: Fiz diversas matérias sobre Irmã Dulce, chegamos a ganhar um prêmio por isso e é tudo resultado de o jornal ter apostado em tal conteúdo, pois, somos equilibrados, como disse antes, não somos sensacionalistas, mas sabemos vender com qualidade e chamar a atenção sem nenhum tipo de abuso.


Quais os critérios de noticiabilidade mais importantes? A morte é maior?
Não necessariamente. Por exemplo, se o governador bater a testa numa bancada, isso virará notícia, sem necessariamente que ele morra ou que sofra algum acidente grave (brinca). Isso da importância depende muito da dimensão do acontecimento e do número de leitores, ou seja, se o assunto irá atingir uma quantidade considerável destes.
Acho interessante e ao mesmo tempo estranho, pois, hora ou outra me pego pensando nisso: Um dia apostamos num determinado assunto, que outrora, até mesmo na semana passada, não foi dada o devido valor, talvez por ter acontecido antes algum outro evento de grande porte que tenha ofuscado a nossa visão e também ocorre o contrário, deixarmos de dar a devida importância a algo e depois percebermos o erro.


A concorrência jornalística chega ao ponto de modificar uma matéria já existente ou a ter de investir em alguma, excluindo outra?
Isso depende também, porque ocorrem momentos onde há forte concorrência e outros em que ela não existe, afinal, algumas matérias são muito exclusivas. O assunto é deles (concorrência) e pronto. Quando há essa possibilidade de competir, tanto furos jornalísticos, como assuntos em alta, nós “nos jogamos de cabeça”, corremos atrás e muitas vezes conseguimos dar melhor que eles e em outras não. Acontece muito dos jornais se pautarem. Pois, nossos furos pautam o concorrente e os furos dele nos pauta também.
Teve uma matéria minha que foi muito comentada na época, de Propina em cartórios, pois, usei de uma câmera escondida para flagrar o ocorrido e é claro que a concorrência não tinha o que fazer, afinal, a gravação nos pertencia, eles não tinham nenhum material, o furo era do Correio, portanto, exclusivo. No máximo, o concorrente fez um comentário ou algo relacionado no dia posterior, mas fomos nós os únicos que por vários dias exploramos o tema.


Em dias de poucas notícias, embora, quase impossível, vocês sentem a necessidade de preencher o espaço (folhas), com diversidades de acontecimentos, mesmo não tão importantes?
Isso realmente é muitíssimo difícil, ainda mais no correio com o espaço reduzido. Tem dia que temos uns determinados assuntos, mas, estes não são suficientemente fortes, não dão uma boa capa e ou não possuem foto. Costumamos não só nesses casos, como normalmente mesmo, buscar recursos gráficos variados, infográficos e figuras para substituir/acrescentar nas matérias. Acho que uma foto diz muito. Tem o mesmo valor de um texto.


Como é a sua rotina de trabalho?
Às vezes passamos 12 horas numa redação. No meu caso, sempre trabalhei de manhã e nesses casos, já é quase de lei que chega a hora do almoço, você vai, almoça e volta ao trabalho e quando vê termina o expediente no turno da noite.
Embora, ultimamente tenho ficado com o turno da tarde para produzir matérias “frias” (especiais). Costumo usar o tempo que me sobra com as fontes e então chega um momento que tenho de parar para terminar o texto. Há uma máxima do jornalismo que é mais ou menos assim: Uma hora temos que parar de apurar, senão a matéria não fecha.
Com a chegada do atual Diretor de redação, diminuiu-se a carga horária nos finais de semana, pois, quando você faz o plantão em um final de semana, depois, ganha três outros finais de semana de folga.
As matérias frias foram feitas durante a semana e no final de semana, no plantão de Cidade, todos trabalham nestas áreas, para remanejar o jornal.
É até engraçado, pois, o chefe fica no pé da gente para não darmos hora extra, mas também fica no nosso pé para fazer uma boa matéria, usarmos as fontes e etc..


As matérias do Correio costumam atender a uma política da empresa ou o jornalista é completamente livre para escrever, sem ter de se vigiar em discussões políticas?
Eu trabalhei no antigo Correio da Bahia e realmente ele era mais político do que hoje, pois, desde a mudança para o Correio* (atual), a o próprio dono preferiu reduzir sua carga política, tanto que hoje a área de política não é tão explorada assim. Mas, a tendência política no antigo Correio restringia-se a parte específica de Política.
Eu que trabalhei na editoria de Cidade, percebia uma autonomia muito grande, mas, é claro que não se podia bater de frente, afinal, temos sem um dono. Naquele antigo jornal, além do caderno de Cidade tinha também o de Repórter. Contudo, nós considerávamos muito injusto que falassem que éramos tão políticos assim.


Em qual horário costumam fechar a edição do jornal do dia seguinte?
Acostumávamos, por questão de impressão (da gráfica) a fechar uma primeira rodada umas 20h30 e a segunda rodada por volta de 23h, mas, atualmente só temos uma rodada, que ontem fechou às 22h.


De quais formas vocês costumam chegar até um acontecimento, como são informados?
Fazemos rondas, onde repórteres e o pessoal do site fazem entram em contato com a Polícia, Transalvador, Bombeiros e Defesa civil, nas busca por crimes e acidentes. Também podem vir por meio das fontes de reportagem. Depende do jornalista, possuir e saber lidar com as mesmas.
Posso dizer que: Linda Bezerra (chefe de reportagem) é uma fonte inesgotável de fontes.
Há também os casos das fontes telefonarem para cá sugerindo algo ou até mesmo os próprios leitores que escrevem para o jornal.


Há alguma dificuldade no transporte de jornalistas para cobrir matérias na rua?
Não. Assim que chegam as informações de um caso que necessite logo de uma cobertura, enviamos alguém o mais rápido possível. Devemos possuir uns nove carros disponíveis aos jornalistas, mas já ocorreu numa ocasião rara, de termos pego um táxi.
Deseja dizer algo mais aos estudantes de jornalismo da Facom?Para ser clichê: Jornalismo é uma profissão apaixonante, apesar do salário, afinal o mercado é muito cruel mesmo. O jornalista tem de meter a cara para estudar e entrar no mercado, sendo um bom repórter.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

"O jornalismo é universal, você tem que ser didático": Rodrigo Meneses, repórter do Massa!

Júlia Belas e Luiz Fernando Teixeira



Rodrigo Meneses é repórter do Massa!, e seus textos muitas vezes são aproveitados também pelo jornal A Tarde. Durante nossa entrevista, Rodrigo nos fala sobre a estrutura dos dois jornais, as suas diferentes metodologias e linhas editoriais, além de comentar algumas das matérias de sua autoria que foram publicadas durante o período de análise dos jornais.

Quando um repórter é contratado pelo Grupo A Tarde, ele é escolhido para um jornal já definido?
Como o Massa! é novo, tem oito meses, vai completar um ano dia 7 de outubro, eu e as pessoas que estão trabalhando no Massa fizemos uma seleção para trabalhar lá. Foram seis etapas. Mas você é contratado para trabalhar ou no Massa! ou no A Tarde. Abriram várias vagas no A Tarde, as pessoas são contratadas para trabalhar num veículo específico.

Como são escolhidos os repórteres que escreverão matérias para os dois jornais?
É um grupo de comunicação. No A Tarde tem o Massa!, tem o A Tarde, tem o A Tarde online, tem a Web TV. No Massa! e no A Tarde, como são impressos, as reuniões de pauta são entre editores dos dois jornais. Tem um secretário de redação para os dois jornais nas reuniões, e tem pautas que são do interesse dos dois jornais. Os materiais acabam sendo aproveitados.

Como é a estrutura das redações do Massa! e do A Tarde?
A equipe do Massa! é bem menor e o jornal A Tarde é aquele jornal tradicional. O Massa! tem uma equipe reduzida, tem uma editora-chefe e os editores de cada editoria: editoria Geral tem dois editores, um que pega a parte de Polícia e o outro com Economia Popular e Educação. Economia popular são vagas de emprego e outras coisas de economia que interessam mais o público do Massa!, classes C, D e E. E tem a página "Nas Ruas", que é matéria de bairro. Costuma ser a 7 [página], costuma ter matérias sobre bairros e ruas de Salvador. A editoria de Esportes tem um editor e um sub-editor também. Na editoria Bem viver são matérias de entretenimento, saúde, comportamento. Cada editoria tem dois editores. Esportes, dois repórteres, bem viver só tem uma repórter, geral tem três repórteres, geralmente dois em polícia e um na parte de economia popular. O repórter do Massa! acaba fazendo matéria não só de polícia, mas de tudo. Além das estagiárias.

O que essas redações dividem em termos estruturais, tipo equipamentos, carros, o próprio espaço...
O Massa! tem três carros, mas quando tem problema, por exemplo, quando já tem três repórteres do Massa! na rua e o carro do A Tarde tá aí parado, a gente pode pegar o carro do A Tarde. Porque o Massa! só é uma segmentação do produto, mas a estrutura é dividida, mas caso haja algum empecilho, você pode utilizar. A redação é no mesmo espaço, tem uma bancada de repórteres, diagramadores e editores que é do Massa!. Mas também às vezes, o repórter do Massa! tá na rua e não tem computador, o do A Tarde pode usar a máquina. Para a equipe do jornal ficar mais próxima, eles dividiram a redação e ficam os repórteres, editores e diagramadores do Massa! em uma bancada.

Qual a rotina pra você, que escreve tanto pro Massa! quanto para o A Tarde?
Depende dos horários. O A Tarde tem vários horários. O pessoal da manhã chega 8h, o turno da tarde entra 14h e quem fica no plantão chega às 17h. A carga horária é de 7h.

Vocês trabalham como uma dupla, com fotógrafo específico pra cada repórter, ou trabalham com aquele que estiver disponível?
O Massa! trabalha assim. Sempre é uma dupla, porque no Massa! são dois fotógrafos, um para o turno da manhã e outro para a tarde. No caso, eu, que pego pela manhã, sempre saio com aquele fotógrafo, e o repórter que sai de tarde sempre sai com aquele mesmo fotógrafo também. No A Tarde é mais difícil você trabalhar sempre com aquele mesmo fotógrafo, é o que estiver disponível na hora.

Quando você recebe uma pauta, já sabe que será para um dos ou para os dois jornais?
Não é sempre que a gente sabe. Isso vai depender do resultado que vem da própria pauta mesmo. Tem uma matéria que foi publicada hoje (29/06) sobre uma capitã da PM que foi escolhida para ser a comandante da base de segurança comunitária que vai ser instalada no Calabar. Eu pego a entrevista que foi publicada no jornal de ontem (28/06), em que o coronel da PM falou: “-Fiz um convite à capitã Roseane para ser a comandante da base de segurança do Nordeste, que será instalada”. Então eu aproveito essa pauta de ontem para entrevistar essa pessoa e saber que material será apresentado para o A Tarde também, mas nem sempre você sabe. Eu mesmo, que trabalho em Polícia...tem coisa que acontece no dia-a-dia da cidade que se for do interesse do A Tarde eles publicam também.

O Massa! é um jornal que não sai aos domingos. Qual o procedimento com os acontecimentos que surgem no sábado?
O Massa! não sai dia no domingo, segundo o que nosso editor falou, porque tradicionalmente os jornais populares não saem dia de domingo, e também para não competir com o A Tarde, já que há aquela tradição de comprar o A Tarde no domingo, tem gente que só compra no domingo, e por isso o Massa! não circula nesse dia, para que não haja essa competição, e as pessoas que compram o Massa! comprarem o A Tarde dia de domingo. Segundo o que eles passaram pra gente, o pessoal que está lendo o Massa! pode ser uma classe que está em ascensão, que está lendo o Massa! mas que pode entrar pra uma faculdade, ascender pra uma nova classe econômica, e possa virar um leitor do A Tarde depois. É uma questão de estratégia para esse público que não lê jornal e poderá passar a ler o A Tarde também.

Com relação às matérias sobre Nem Gorda, foram vários dias quase sequenciados tratando desse assunto; não seria mais fácil manter uma pessoa responsável por acompanhar o caso ao invés de repórteres diferentes?
Eu fiz uma matéria do dia em que ela foi presa, porque foi dia de domingo e eu estava trabalhando aqui. Aí na segunda já foi meu colega João Eça que foi fazer, e ele foi dar continuidade, e depois dessa matéria na segunda-feira, ele foi fazer todas as matérias sobre Nem Gorda. Ele até conheceu o advogado dela, estreitou os laços para ter mais acesso às informações.

As matérias “Investigador é sepultado sob clima de consternação” do A Tarde e “Presos 3 acusados de matar policial” do Massa!, ambas do dia 02/06, começam com o mesmo lead, mas a abordagem é diferente. Por que houve essa distinção?
Às vezes o Massa! brinca mais nos títulos, manchetes, é uma orientação pra gente, porque o jornalismo é universal, você tem que ser didático, falar numa linguagem simples, para todo o público entender. Aí no Massa!, há aquele caráter de novela, que permite você brincar mais na narrativa, e no A Tarde você tem liberdade de criação também, mas é um jornal mais sério, aí você acaba escrevendo até um texto meio careta, mas há uma certa liberdade criativa. A depender, existem certos termos você não vai usar.

Ainda nessas matérias as fotos utilizadas são diferentes. Qual o critério de escolha?
Geralmente é acertado entre os editores não usar a mesma foto. Até a própria abordagem do Massa! vai pela questão mais emotiva, mais humana. Tenta pegar a questão da emoção, da história das pessoas. Isso também é um critério de definição. Também não se usa muito foto subjetiva. A foto não precisa descrever o texto, pode ser mais subjetiva pra provocar uma interpretação a mais do leitor. No Massa! geralmente se usa foto mais direta, que já esteja explícito o sentido naquela foto.

Há alguma dificuldade em fazer uma matéria que seja uma seqüência de outra escrita por outro repórter?
Tem dificuldade quando não há comunicação entre os repórteres. Mas quando a gente se comunica, troca os telefones, passa os contatos... O melhor seria se a pessoa continuasse, mas você vai quebrar esse grau de dificuldade conversando com o colega, um passando o que apurou para o outro.

As matérias “Mulher induz filho a fazer disparos contra o marido” e “Mãe põe pilha e filho atira no pai”, do dia 07/06, têm praticamente o mesmo texto, mas no Massa! ela recebe maior tamanho e destaque. Por quê?
É que o A Tarde, inclusive é uma queixa nossa, é um jornal onde há várias matérias já planejadas, matérias que não são do dia. Essas matérias acabam preenchendo o espaço da edição. E também vai pelo entendimento do editor do A Tarde mesmo, às vezes um fato que é uma matéria no Massa! ele dá uma coordenada, uma notinha, uma curta no A Tarde. O Massa! tem dois altos nas páginas 4 e 5, duas matérias principais de polícia e várias curtas. Aí é a aposta da gente, pelo tema, um filho atirar contra o pai. Aí o Massa! explora mais, tem mais espaço. Às vezes, o A Tarde dá duas páginas de segurança, uma página de segurança inteira, e acaba tendo mais espaço do que aquelas duas páginas do Massa!.

As matérias “Militares treinam ação de salvamento com apoio aéreo” e “Homem ao mar! Operação resgate”, ambas do dia 09/06, apresentam o mesmo texto. Mas por que o intertítulo “Capacitação” (A Tarde) ou “Parceria” (Massa!) é um texto no primeiro e no segundo aparece na forma de box?
Muitas vezes eu faço a matéria aqui, no Massa!, e vou embora. Eu nem sei se a matéria vai ser aproveitada pelo A Tarde, não é toda vez que você sabe. Tem vezes que o A Tarde pega meu texto e preenche o espaço. No Massa!, as matérias são mais divididas, enquanto no A Tarde o texto é corrido. Algumas vezes o A Tarde tem mais espaço, aí perguntam “você tem mais alguma informação?”, dão mais espaço pra eu contar essa história melhor, aí eu preencho e o texto fica mais diferente.

Nessa mesma matéria, o último parágrafo da parte “Parceria” é uma declaração. Já no Massa! ele ganha um destaque maior, aparecendo em uma nota e com o título “Ligados na Copa 2014”. Por quê?
No Massa! nunca é uma matéria só, sempre tem uma coordenadinha. A gente divide. Quando tem uma parte da matéria sobre determinado assunto, eu coloco nessa coordenada, enquanto no A Tarde ela pode vir toda no texto corrido, por causa do modelo editorial do jornal.

Sobre as matérias “Enterro de motorista vira ação de protesto” (A Tarde) e “Protesto pela morte de um trabalhador” (Massa!), do dia 10/06. A primeira foi escrita por você e por Paula Pitta, além da colaboração de Juliana Dias. Por que o nome de Juliana não foi colocado na parte onde normalmente vêm as assinaturas?
Quando vem como “colaborou” é porque ela fez uma parte pequena, pouca coisa. Quando se assina a matéria junto, é porque as duas pessoas apuraram bastante. “Colaborou” é quando você está na redação e precisa que alguma pessoa fale com alguém, pegue uma declaração, questione isso a essa pessoa. Vai pelo que você produziu daquela matéria. Se ela tivesse produzido tanto quanto eu e a outra repórter, aí o nome dela viria em cima também.

Pelo fato de o domingo ser um dia no qual geralmente ocorrem menos acontecimentos, os jornais de segunda-feira têm uma tendência a trazer matérias com caráter de reportagem, como no Massa! do dia 13/06, cuja página 3 era a matéria “Carteiros em estado de nervos”. Essas reportagens são pré-selecionadas para o dia ou ficam reservadas?
A gente planeja esses assuntos que não são quentes, factuais. Como no domingo trabalhamos com a equipe reduzida, a gente tem que sempre fazer uma matéria que é chamada “de gaveta” na edição de segunda-feira. A gente tem que fazer essa matéria durante a semana, preparar a reportagem durante a semana, porque com a equipe reduzida você não vai ter condições de fazer o jornal inteiro.
A matéria sobre o enterro do ex-vocalista Germano, do Olodum (“Despedida ao som dos tambores” no Massa! e “Tambores soam no adeus ao vocalista do Olodum” no A Tarde), tem maior destaque no Massa!, ocupando toda a página 3, enquanto no A Tarde ela recebe menor atenção. Por quê?
O Massa! tem a página 3 que são as notícias do dia, que são aquelas notícias que fazem a diferença, ou sobre pessoas que fazem a diferença, histórias assim, estilo reportagem, alguma coisa forte do dia... A página 3 do Massa! é a que tem mais espaço. No A Tarde, deram uma foto grande na capa, mas o espaço não foi tão grande. Isso é coisa pro editor do A Tarde responder. O que ele teve no dia, não deu tanta importância, achou que não deveria ter aquele espaço que veio no Massa!. O Massa! deu aquele espaço porque eu tenho mais contato com o pessoal de lá, e eu vendi a idéia dizendo que o enterro encheu, as pessoas choraram... Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas. As pessoas cantaram durante o velório, o enterro tava marcado pras 11h e só aconteceu às 11h40, porque o pessoal ficou cantando as músicas que o cara compôs, pararam para rezar a missa e depois continuaram cantando em homenagem a ele. Era muita gente, e o cara foi um cantor importante do Olodum, que é um bloco afro popular, aí eu vendi a idéia. No A Tarde eu não fiz isso, como eu não tenho essa relação muito próxima com o editor.

Ainda sobre o enterro de Germano, como abordar as pessoas que estão lá, chorando a morte de algum ente querido, para conseguir uma entrevista?
É difícil. Você tem que saber chegar, ter a sensibilidade, cumprimentar as pessoas, se apresentar... A pessoa que está chorando muito não dá pra falar. Por isso que é bom chegar antes, que o momento de mais emoção é quando vão depositar o caixão, daí você conversa antes, que as pessoas estão mais serenas. Às vezes, tem aquele parente que se emociona mais, você não consegue falar, ou então vai esperar um momento que ele esteja mais calmo para poder falar. As pessoas compreendem que é o seu trabalho, mas tem gente que não entende... A mulher daquele motorista mesmo estava falando normal, mas o pessoal ficava dizendo “se você não quiser falar não fale, é tudo um bando de carniceiros”, como se a gente quisesse explorar a miséria da pessoa, a dor da pessoa. O leitor, quando pega o jornal um dia, quer ler uma declaração póstuma, ou se teve uma convivência próxima com a pessoa que morreu, gosta de ler. Quando você vai abordar uma pessoa pra entrevistar, você não obriga ela a falar. Você se apresenta, pergunta se ela pode te responder, se ela não quiser você não vai forçar a barra. Eu mesmo chego educadamente, espero um momento oportuno pra chegar, me apresento, pergunto se poderia conversar um pouco... Se a pessoa concordar a gente conversa. Se não quiser, eu não vou forçar a barra nesse momento de dor, num cemitério. Agora, tem outras situações que você tem que insistir mesmo, mas cemitério... Se a declaração da pessoa tá ali, foi porque ela quis.