segunda-feira, 2 de julho de 2012

“O maior concorrente do jornal hoje em dia é a televisão” | Cláudio Bandeira

Alan Tiago Alves, Cássio Santana e Raul Castro




Cláudio Bandeira é editor-coordenador da editoria Salvador e Região Metropolitana do Jornal A Tarde, onde atua há 16 anos. O gosto pela área de Ciências Humanas e a busca por algo que abrangesse vários aspectos e não fosse tedioso levou Bandeira a escolher o jornalismo como profissão. Soteropolitano, ele se formou pela Faculdade de Comunicação da Ufba em 1985.

Bandeira também já trabalhou na Tribuna da Bahia e na TV Aratu. O jornalista atuou em diversos cargos, sendo repórter, editor, copidesque e subcoordenador. Quando deixou o Tribuna da Bahia, por volta de 1995, o editor lembra que o jornal passava por dificuldades. “O Tribuna estava falindo, teve um processo de desgaste. No A Tarde, tive uma nova experiência em um jornal. Era um jornal que tinha uma construção de informação completamente diferente da Tribuna. Aqui era um jornal mais maduro”.

Na entrevista, Bandeira fala sobre a rotina de trabalho na editoria de local e, em meio à imensa quantidade de informações que chega ao conhecimento dos jornalistas, como são escolhidas as matérias que merecem sair nas páginas do jornal e quais serão destaque. O editor-coordenador também explica como fatores estruturais, organizacionais e de tempo podem interferir na construção da notícia e responde se uma notícia pode ou não cair por conta de interesses políticos e econômicos do veículo. Confira!


Como é a rotina de quem trabalha na editoria de cidades do Jornal A Tarde (dia a dia, reunião de pauta, cobertura, edição, fechamento)?
Para a escolha das pautas, nesse novo modelo, existem algumas possibilidades: primeiro temos as sugestões e reclamações da comunidade. O A Tarde nunca abriu mão disso. Temos, também, pautas criadas a partir de uma agenda própria. Vivemos em um mundo altamente concorrencial e a gente precisa ter algum diferencial para poder publicar e não ficar todos os dias naquela coisa do factual, do esperado. Então, a gente tem as sugestões advindas da comunidade, pautas especiais criadas pela coordenação e pelos repórteres, que são o grande núcleo de origens dessas pautas. Os repórteres estão na rua, estão conversando com várias fontes, estão vendo problemas, estão descobrindo uma realidade que às vezes quem está na redação não vê. Por isso defendo que o jornalista não deve ficar na redação a maior parte do tempo. Ele deve ir à realidade, conversar com as pessoas, ver a fonte cara a cara para poder interagir. As pautas surgem assim. A partir disso, eu, que sou o coordenador, me reúno com a chefia de reportagem, Cleidiana Ramos, e trocamos algumas ideias sobre a condução e as possibilidades. Por exemplo, para que uma pauta possa se realizar, ela precisa ter abrangência. Sem abrangência, ela atinge núcleos restritos de interesses. Eu não vou me interessar sobre acidentes de moto se eu não conduzo motos, mas aquilo pode me perturbar de alguma forma, porque eu posso ser atropelado por uma moto. A gente pensa muito nessa coisa da abrangência no momento das escolhas.


Quais os critérios de noticiabilidade adotados para a escolha das notícias que sairão no jornal e, também, a forma como sairão – questão do enquadramento?
A abrangência, a relevância, o interesse comunitário e, sobretudo, a questão do global a partir do local. 
Todos os jornais que cresceram, nunca abandonaram sua terrinha, seu umbigo, embora todo mundo queira estar inserido num todo. Mas o local é sempre a nossa realidade. Além desses critérios, é preciso perguntar o que a gente tem como notícia. Essa é uma pergunta importantíssima. Eu posso fazer uma matéria, mas aquilo pode não ter notícia alguma. Por exemplo, eu quero falar sobre os acidentes envolvendo motociclistas: há muitas motos, fiscalização deficiente e, às vezes, falta de preparo do próprio condutor da moto. Mas qual é a notícia disso? Não tem novidade. Mas, é divulgado um estudo do Ministério da Saúde e diz que a Bahia é um dos recordistas de números de acidentes e de mortes em condução de motos. Pronto, a notícia surgiu. Isso ganha um peso. Então, você tinha um tema, um cenário, mas não tinha ainda um fato concreto jornalístico. Com o resultado da pesquisa, a gente passa a ter um fato e essas questões são levantadas.
Outro exemplo é a questão da educação: temos uma greve de mais ou menos 75 dias, o que corresponde a três meses, agora, no dia 11 de julho. Isso tem importância? Respondo: total! Tudo bem que os professores têm direito à greve; os professores estão mal preparados e são mal pagos, mas ai vem uma coisa maior que é um bem fundamental chamado educação, um instrumento de cidadania. São coisas que parecem não ter peso a priori, mas têm um peso na construção de uma realidade de futuro, sobretudo pelos jovens que precisam se encaminhar de alguma forma. Esse é outro tipo de notícia. Não é uma notícia hard news, mas é uma notícia de formação do cidadão. Temos, também, os temas relacionados à saúde, a pobreza, a falta de saneamento, a questão dos bairros pouco atendidos pelo poder público, os surtos de leptospirose, surtos de dengue, o pipocar de casos de meningite. A gente acompanha muito esses casos, porque isso é uma obrigação da imprensa. Atinge a todos? Graças a Deus não, mas pode atingir. É um risco que cabe à imprensa alertar, como também cabe à imprensa investigar. Tive um professor na Facom, Renivaldo Brito, que respeito e admiro muito, que dizia que existia uma média de 27 a 28 tipos de lide para se noticiar. Segundo ele, cada um desses tipos levava a buscar um aspecto diferente. O fundamental, em minha opinião, na construção de uma notícia, além de humanizar e trazer personagens, é abordar, de fato, coisas concretas que interessem à comunidade, a sociedade, a cidade.


Qual o lugar social e o papel social do jornalista? E como sua visão de mundo interfere no seu trabalho?
Diziam que jornalismo era uma coisa de objetividade, de isenção, e que a polarização deve ser evitada e que você deve contemplar os vários aspectos. Ou seja, o contraditório e a diversidade devem ser respeitados, independentemente do que eu acredito. Mas seria impossível e eu estaria mentindo, se dissesse que minha escala de valores não interfere nas escolhas. Isso ai é real. Mas de que forma você evita que isso seja prejudicial? Por exemplo, digamos que você seja um oponente meu em alguma coisa e eu acho que não deveria te dar visibilidade. Nesse caso, eu estaria sendo criminoso se deixasse que minha opinião, diferente da sua, ou a minha antipatia por você lhe afastasse daquele fato. Então, eu sempre digo: jornalista não é para censurar, jornalista não é pra cortar e nem separar. E como fazer isso? É preciso ter consciência. Por exemplo, na cobertura de um jogo entre Bahia e Vitória, mesmo torcendo para um dos dois times, você deve flutuar em um mundo superior a isso, porque você está desempenhando uma responsabilidade social e deve mostrar as coisas da melhor forma possível, da forma mais abrangente possível. Baseado em critérios de responsabilidade, você tem que trazer o contraditório, o divergente, para a notícia. Mesmo quando você vai acusar alguém, essa pessoa também deve ser ouvida. É preciso ouvir quem acusa, o acusado, o advogado do acusado. Você vai ter que criar um diálogo entre as fontes, porque, se você se envolve, você deixou de fazer jornalismo. Não existe preferência para quem está em um cargo como o meu; existe consciência.

Quem é o público-alvo do jornal A Tarde?
O novo direcionamento editorial indica que A Tarde tem um público preferencial que chama de classe A e B e uma ponta da classe C, uma classe que está ascendendo ao consumo. As classes A e B representam a classe média. São as pessoas que têm profissões, que têm escolaridade alta, que têm alguns tipos de padrão de vida. Mas isso não quer dizer que seja excluído o restante da realidade em que a cidade está inserida, os bairros não atendidos pelo Estado, as pessoas excluídas que, inclusive, são maioria na cidade. Ou seja, apesar desse produto ser direcionado às classes A e B, e essa parte ascendente da classe C, não impede que eu mostre o que está acontecendo no subúrbio ferroviário ou nos bairros mais carentes. A gente procura fazer pautas que atendam preferencialmente a esses grupos de consumo identificados por pesquisa. Isso não se escolhe, é uma escolha simples, é preciso fazer uma avaliação de mercado para poder direcionar o produto.

O Massa! foi criado para atender a um público que o A Tarde não alcança?
O Massa! é um jornal que segue um modelo que tem um grande sucesso e apelo em várias cidades da América Latina. Ele segue aquela coisa do fato policialesco ou de alguém famoso, ou nem tanto, mas que tenha alguma projeção nesse grupo. Nesse caso, estamos falando das classes C e D. Às vezes, essas pessoas não estão muito interessadas em elaborações. Mas você tem economia popular, tenha saúde, porém tudo é tratado com aquela abordagem específica. Eles identificaram que havia um apelo dentro da cidade e a cidade não tinha um jornal com esse tipo de perfil, que é um perfil popular. Percebe-se que há uma predominância do noticiário policial, que no A Tarde a gente chama de segurança, porque é uma linguagem mais elaborada. No A Tarde, quando se noticia, todos são acusados e todos são suspeitos. É o que manda a legalidade para o tratamento das pessoas, porque ninguém está aqui para julgar, a gente está aqui para noticiar. Porém, nessa outra realidade, as pessoas querem a vida mais crua, mas não quero dizer que se desrespeite a lei. A coisa já é apresentada de outra forma. No A Tarde a gente tem reduzido muito o noticiário policial. Mas, por exemplo, no caso dos dois rapazes que foram mortos brutalmente em Camaçari, você não vai de forma alguma, deixar de publicar. O Massa! é voltado para as pessoas mais pobres, que ganham Bolsa Família, mas que querem ter alguma coisa com a qual se identifiquem.

Nos quinze dias analisados, matérias da editoria de cidade forma manchete de capa em nove edições. Qual o critério utilizado para determinar a matéria de capa? Dá-se maior valor à proximidade? Como é escolhida a notícia que será destaque na pagina A4, a principal do veículo?
Fazemos duas reuniões por dia (uma pela manhã e a outra à tarde) com a presença do secretário [de redação], com a presença dos editores.  Tem-se uma produção de várias editorias: Local, com Salvador e Região Metropolitana e interior da Bahia, a editoria de Política, de Economia,  Mundo e a Últimas notícias, mais voltada para Salvador. A partir disso, fazemos uma escala de pesos de notícias, usando vários critérios como proximidade, abrangência, gravidade e o que isso diz respeito ao meu público. Coloque-se do outro lado e imagine você em uma banca de jornais. Eu compraria esse jornal por quê? Notícia é um produto à venda, como diria Cremilda Medina. Isso aqui não é um brinquedo de juntar notícias. A partir desses critérios, se escolhe o tema mais significativo. E, às vezes, a cidade está de tal forma que você consegue produzir temas relevantes na área de segurança, na área de saúde, educação, a questão da greve. Nesse aspecto, a primeira e mais importante característica da uma notícia é a proximidade, o local. Mas, por exemplo, o Paraguai no dia em que o impeachment do presidente foi manchete. É longe, contudo, naquele dia, o assunto ganhou uma força porque foi grave. O que aconteceu foi muito rápido e ninguém sabe exatamente que tipos de interesses motivaram aqueles senhores [os membros do congresso paraguaio] a fazer isso tão rápido. Portanto, Paraguai como manchete. Nesse dia, Salvador tinha coisas interessantes, mas aquilo [o impeachment] era muito mais interessante em termos de estabilidade de democracia, dos riscos disso nessa cadeia latino-americana, de história recente de ditadura.


E quanto aos títulos, legendas e fotos, como são definidos?
O título é uma arte complicada. Para você dar um título não é simples de se aprender. Todo mundo pode titular, mas dá o título certo não é fácil. Tem que ter um número exato de caracteres, uma objetividade que seja um forte de identificação imediata. Além disso, título de jornal tem que ter verbo, já que isso aqui não é revista, que fica colocando duas palavras. Às vezes tem títulos esquisitíssimos de duas palavras que não dizem absolutamente nada, mas que também podem dizer muito. Em relação à foto escolhida, a decisão é resultado da participação da editoria de foto com o secretário e com o editor de fechamento. Você tem que escolher a foto que lhe diga e lhe transmita uma melhor impressão. E importante lembrar que hoje há a concorrência com o mundo visual, não é? O mundo da TV e o mundo da internet são exemplos.

Qual o principal concorrente do A Tarde?
Não sei. Você vai ter que entrevistar o pessoal do marketing, da circulação.

Não é o Correio*?
Não. Essas coisas não são da minha área.

E qual o diferencial do A Tarde para os demais meios de comunicação da Bahia, já que você tem uma experiência de ter passado por vários outros veículos?
O grande diferencial do A Tarde é esse projeto que estamos construindo a partir de modelos instituídos ao longo dos últimos anos. Temos um modelo de agenda própria, de investimento em notícias analíticas, aumento do corpo de colaboradores analistas que contribuam para fazer uma notícia diferenciada que transcenda, supere e que vá além do factual. O maior concorrente do jornal hoje em dia, ou o mais obvio, é a televisão. A televisão tira sua criatividade de ineditismo. É preciso ir além da televisão e se agendar. Isso é importantíssimo. Não quer dizer que você não vá falar de coisa significativa que a televisão deu, mas aquilo não vai ser seu carro-chefe.

O jornal A Tarde foca mais o interesse público ou o interesse do público? 
Nessa questão da segmentação e nessa questão da falta de espaço, eu procuro, embora não sei se isso é possível, focar mais o interesse público. O interesse do público é mais coisa do ‘diversional’. Nesse caso a gente vai para o nosso amigo, o Massa!, bem construído nesse sentido, embora também tenha muitas coisas que sejam promotoras de cidadania. Mas no lado de cá, pelo menos na editoria de local, eu acho que não. Mas, esses dias, a Gisele Bündchen estava aqui e, como não teve condições de sair no Caderno 2, então não havia porque não publicar uma foto curiosa de uma modelo famosa brasileira. Isso é inevitável na mídia. Mas é bom prevalecer o interesse público.

Qual a linha editorial e política do jornal A Tarde? 
Hoje, existe um projeto editorial que está acessível e que as pessoas talvez desconheçam. O jornal é plural, é um jornal comunitário, é um jornal do contraditório, tudo que eu lhe falei. Isso é uma prática de sobrevivência realista. Ou seja, você não pode, hoje em dia, fazer um jornal de apoio de grupos, de segmentos. No passado isso era muito comum. A sociedade cansou. E você tem que procurar ser o mais abrangente possível e solícito das demandas diferenciadas. Você não pode ficar só com o governador, tem que mostrar os outros partidos. Você não vai ficar só com essa visão de realidade atual de administração de Salvador, você tem que abranger outras, porque tudo é muito dinâmico. O jornal precisa dessa prioridade de ser comunitário, de ser plural e de ser diverso e dar direito ao contraditório se expressar.

No dia 15 de Junho, o jornal A Tarde não deu nenhuma matéria referente ao São João na editoria Salvador e Região Metropolitana (A4 a A6), enquanto o tema foi abordado nos demais veículos (sobretudo a apreensão de fogos de artifício em alguns bairros de Salvador). No dia, o destaque da editoria foi: “Conheça os critérios para escolher a melhor faculdade (Salvador, A4)”. Por quê?
Nós temos uma agenda própria. A gente não fica correndo atrás do que os outros estão noticiando. Nesse caso, é preciso distinguir o seguinte: em que bairros foram feitos essas apreensões e se isso faz parte do estilo noticioso do jornal A Tarde. Vão entrar vários componentes de decisão dentro de um espaço restrito, devido a atual conjuntura. É preciso avaliar, também, que ninguém deu essa matéria sobre as faculdades e o posicionamento da Ufba no ranking divulgado. Isso é uma coisa significativa que interessa a um público imenso. A Ufba está em um processo de greve, de protesto, e também entra a visibilidade da questão da pesquisa. E uma pergunta a gente faz: porque os demais jornais também não correram atrás disso? É um assunto que envolve educação, a questão de uma instituição da importância da Ufba, que tem uma participação grande na vida da cidade e do Estado. A questão é essa: trata-se de uma agenda diferenciada que é a agenda do jornal A Tarde.

Uma notícia pode cair por conta de interesses políticos e econômicos do veículo? E se as questões estruturais, organizacionais e de tempo interferem na construção da notícia?
As questões organizacionais, estruturais e de tempo interferem, sim. Às vezes, você planeja um objetivo para ser concluído em um horário determinado, o dead line, e, às vezes, é humanamente impossível por milhares de obstáculos encontrados pelos repórteres. Você pode não encontrar a fonte, ou não encontrar a fonte ideal, pode não encontrar alguém que esteja disposto a fazer críticas em relação um determinado problema. Às vezes, todo um processo de construção esbarra no que a gente mais tem de precioso, a fonte. Quanto aos interesses econômicos e políticos de uma empresa e se isso pode derrubar matéria, eu não tenho conhecimento e nem nunca fui cerceado. Você tem que ter um nível de responsabilidade. Você não pode sair por aí atacando todos como se você fosse um justiceiro. Agora, eu nunca recebi nenhuma interferência. Desconheço o que ocorre em outros veículos. Mas na minha passagem nessa coordenação, as coisas propostas foram concluídas dentro de um nível de responsabilidade, dando voz a todos, sem tomar parte. Agora, se isso acontece, eu não sei. Eu estava lendo uma entrevista de Alberto Dines, na revista da Fapesp, onde ele fala de coisas interessantíssimas sobre a luta dele em querer renovar o jornalismo.  Foi ele, inclusive, quem criou a redação unificada. Ele aborda isso a partir de uma junção política que vem de fora para dentro, como foi o caso da ditadura, que censurava, impedia. Os jornais começavam a temer e, a partir disso, já criavam uma espécie de autocensura. Mas espero que a gente não precise mais desse tipo de reserva.

domingo, 1 de julho de 2012

“Se você tem uma tendência para um lado ou para o outro, isso fica evidente na matéria. Isso faz com que se perca a credibilidade a curto ou em longo prazo” | Alexandro Mota

por Guilherme Reis, Vitor Gabriel e Victória Libório



Aluno do 6º semestre de jornalismo, Alexandro Mota já fez assessorias de uma ONG e de um deputado na Assembleia Legislativa da Bahia, foi  bolsista de iniciação cientifica CNPq com pesquisa sobre planos de comunicação para estudos de saúde, como o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto, ligado ao ISC - UFBA e participou da 1ª edição do Programa Jornalismo de Futuro. A partir daí, as portas para ele começaram a se abrir. Hoje é estagiário do Correio*, publicando matérias quase que diariamente. No Jornalismo de Futuro, ajudou a elaborar o caderno ZIN! Escreveu, em parceria com uma colega, a matéria de capa. Para ele os critérios de noticiabilidade não são tão calculados como se estuda nas Teorias do Jornalismo: “Eu não sei se é tão calculado e fechadinho desse jeito”.


Como é o seu dia a dia?

Eu estudo pela manhã e estou no Correio pela tarde. Costumo pegar em média às 13 horas e saio ao final das pautas, que quase nunca têm horário determinado. Geralmente existe uma variação. Às vezes eu trabalho duas, três horas... Por exemplo, hoje mesmo eu vou pegar três horas para ficar até o fechamento. Sempre tem mudanças rotineiras. E a gente trabalha dois finais de semana, na verdade um sábado e domingo no mês, que é o que chamam plantão, e folga os outros três finais de semana.

Você acha o Correio um produto popular?
Quando você chegar à [professora da Facom] Itânia Gomes, vai rever essa noção de jornal popular. Eu acho que, apesar de ter se tornado um clichê dizer isso em relação ao jornal, acho que é variado. Porque você tem um jornal que fala de economia de uma forma densa, o que não é algo popular, mas também fala de crimes. Até tem essa distinção. De um jornal que vende a cinquenta centavos, mas de fato, não acho que esse valor o torna popular porque o torna acessível. Não coloco nenhum juízo de valor para caracterizar o Correio como um jornal de classe C e D. Não acho que é melhor, ou mais legal, dizer que é um jornal para A e B. Acho melhor dizer que é um jornal misto. Na produção, é um jornal misto no conteúdo. Você vê o A Tarde: ele é claramente pontual em relação à síndrome de ser um “jornalão” como é o The New York Times e a Folha de S. Paulo, de temas rebuscados, com textos mais densos... Isso de fato o posiciona no lugar de um jornal que eu diria quase que exclusivamente A e B. Mas o fato de o Correio ser mais flexível para ter, às vezes, textos que beiram o jornalismo literário, ou outros textos que são de fato como as grandes agências de notícias, mas que se levam a sério, não há bloqueio que ele seja consumido como um jornal sério. Como mostra uma pesquisa, as pessoas passam pouco tempo com um jornal impresso, e elas selecionam aquilo que elas querem ler, ou não. O jornal não oferece um conteúdo pra A, B, C ou D, ele permite que você tenha possibilidade de comprá-lo, independente da classe social que está, vai ler aquilo que lhe interessar. Tem um conteúdo que se flexibiliza dessa forma.

Qual a linha editorial do Jornal?
O jornal, no geral, tem muita abertura quando se trata da formação das pautas. Existe sim, às vezes, expectativas em relação às pautas. Espera-se que tal coisa seja feita, porque isso que constrói a notícia. O repórter quando vai pra rua, ou quando apura independente de ser na rua ou não, ele procura pela verdade dos fatos. E como todo bom jornalista, você preza por observar todos os ângulos da questão e o equilíbrio dos fatos. Existem coisas que se sobrepõem às outras. Isso é uma coisa que eu já vi muito. Se você tem uma fonte oficial e tem uma fonte secundária, digamos óbvio que de alguma forma o que uma fonte oficial diz tem um peso maior. Isso eu não acho que seja nem uma editorialização, mas é uma questão de você saber medir quem tem uma autoridade para falar sobre esse ou aquele fato.

Pertencendo a um grupo político, há influência na publicação de alguma matéria?
Eu não acho que existe direcionamento. Por mais que saiba que pertence a um grupo, uma família. Mas nesses seis meses de experiência que eu tenho, não percebi nenhuma ingerência, nem nenhum direcionamento para esse ou aquele ângulo. E eu acho que isso que faz com que o jornal tenha credibilidade. O leitor percebe. Se você tem uma tendência para um lado ou para o outro, isso fica evidente na matéria. Isso faz com que se perca a credibilidade a curto ou em longo prazo.

Você sente falta de uma Editoria de Política no Jornal?
O jornal já tem uma editoria que é o “poleco”, política e economia, que geralmente trata mais dos fatos nacionais e internacionais, mas também trata da Bahia. E recentemente foi o Jairo Costa Júnior, que é repórter especial e quem geralmente cobre as pautas de política, junto com Rafael Rodrigues, outro repórter, que estão fazendo. O que eu não sei lhe dizer é se já foi instituído como uma editoria, mas eles já estão separados e já estão trabalhando cobrindo política. Não sei se isso vai perdurar depois das eleições. De alguma forma, já tem uma organização de editoria. Eu não sei dizer se isso já foi instituído. Mas já foram separados da editoria de cidades especialmente para isso. Eu acho importante ter essa mudança. Até porque política é algo que requer primeiro, muito conhecimento específico do campo e requer também que os repórteres não só estejam no meio, mas que também sejam de alguma forma conhecidos para que possam cativar a fonte, então é importante ter essa divisão pra que o trabalho de alguma forma flua, permita que haja um acompanhamento, para que as matérias sejam mais quentes, etc.

Quais são os critérios de noticiabilidade dentro do Correio?
Critérios de noticiabilidade, eu acho que seja uma coisa importantíssima para se discutir na faculdade, mas que na prática é muito difícil você identificar. Como é o processo de escolha? Porque às vezes que você vê uma coisa que no início do dia parece ser o mais importante, no final não é mais. Muito complicado. O forte é dizer que as coisas que têm relevância na cidade, especialmente para Salvador. Apesar de que estamos dando muita coisa de interior, porque o interior tá crescendo muito e esse crescimento vêm cheios de problemas, problemas das capitais, como a criminalidade. Geralmente o que é de interesse da cidade, o factual e o que é mais quente; não tem como não terem fatos. É muito difícil explicar, porque não tem explicitado isso de escolha da noticiabilidade. E eu também não sei se as escolhas são tão calculadas como a gente estuda nas Teorias do Jornalismo. De dizer que uma morte vale mais do que tal coisa. Eu não sei se é tão calculado e fechadinho desse jeito.

Já ocorreu de você não cobrir alguma coisa porque não teve recurso, ou de uma pauta cair durante o dia?
Isso de se deixar uma pauta no meio acontece muito. Principalmente por conta de acontecer algo mais importante e você ter que ir cobrir. Outra coisa é que às vezes você está num lugar e te chamam pra fazer cobrir outra matéria. Por exemplo, vou pra uma reunião, chego lá, não necessariamente eu preciso ficar até o final pra saber de tudo, mas posso falar com uma pessoa, cativar uma fonte. Pego o telefone dela e falo: “Olha, te ligo mais tarde para saber como foi o final.” Não é o ideal, né? O ideal é que você acompanhe a pauta até o final. Mas acontece de você está em um lugar e pode acontecer alguma coisa mais importante. Às vezes você é chamado para cobrir uma manifestação, às vezes as pessoas ligam: “-Olha, fecharam a paralela.” Aí você vai lá e tem umas cinco pessoas. Não vale, entendeu? A pauta cai por si. Você vai fazer outra coisa, você tá na rua, se tiver outra coisa pra fazer, você vai fazer logo. Então, é muito comum isso, e a gente que tá na rua, a gente tem a possibilidade de indicar uma pauta, defendê-la ou criticá-la. Quando você sai você sente o clima, o que pode ser de fato mais importante ou menos importante por seus contatos com a fonte. Dá pra perceber se a pauta é a aposta do dia, ou se ela vai cair. Eu acho muito bom, porque eu acho injusto com o leitor, você noticiar, ou dar determinada importância a algo só por uma questão de planejamento. É importante que esse planejamento tenha uma deixa para o que for de importante ter mais espaço e ser valorizado. E o que não for de interesse da cidade, que caia ao longo do dia mesmo. Ontem eu recebi cinco pautas. Apurei quatro e uma caiu logo no início.

O fato das matérias factuais serem sintéticas interfere na escolha das fontes e na construção da matéria?
O jornal tem duas páginas, que é o 24H, com as matérias menores, e o Mais, que são as matérias aprofundadas. O 24H tem o que há de mais factual, mas acho que temos que considerar algumas coisas; muito do factual, o que é mesmo quente, vai estar no jornal do outro dia, já se leu sobre isso na internet, já viu no BATV. Se você pegar um texto gigante sobre um tema que de algum modo já teve repercussão no dia anterior, considerando que o jornal só sai no outro dia, isto faz com que tenha uma série de coisas desnecessárias. Quando você tem um texto menor, óbvio que isso gera uma limitação em escrever, mas de verdade às vezes quando eu faço 24H, em nada interfere a apuração. Fazer um 24H, ou fazer um Mais, às vezes a apuração requer o mesmo tempo e o mesmo esforço. A diferença é só o produto que sai, na forma de hierarquizar. O que é que “sobra” pra se dizer no outro dia sobre determinado assunto? Isso falando de algo que já aconteceu. Você se dá com aquilo dentro de determinadas funções, coisa que não é algo que requer tanta análise, ou tanto especialista, você vai querer tratar do fato especificamente. Às vezes o 24H é o “lidão” do A Tarde. De fato, quem lê a matéria da tarde lê tudo, ou só lê o fato? Se você já soube disso no outro dia? Se você já soube que ontem, à tarde, uma pessoa foi morta na frente da Universidade da Bahia, por exemplo? No outro dia, o que sobra dizer? Sobra dizer que de alguma forma alguém foi preso, ou coisas que de alguma forma antecede algo que você já sabe. Em relação ao Mais, nem sempre ele é tão frio assim. Às vezes tem muito factual no Mais. Só depende, às vezes, de ter uma pauta que valha ter uma repercussão maior. Por exemplo, a greve dos professores está sempre no Mais. Mas porque você tem algo factual com muito valor humano; você tem muitas historias de gente que está sem ter aula, uma série de tendências políticas em relação a isso, então, de fato, existe muito a se explorar. É factual e está no Mais. Às vezes os factuais do 24H nem sempre são tão curtinhos assim. Tem 24H, que são geralmente as aberturas de página, que se a gente for falar de tamanho, às vezes são tão grandes quanto às matérias do Mais, que chamam de “Mais chumbado”. Que você tem uma abertura do Mais que é um texto que não tem nenhuma publicidade, e outros que são textos maiores, geralmente com publicidade embaixo, então não é uma página inteira.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

“O que é notícia aqui é notícia no The New York Times” | João Eça




por Virgínia Andrade, Sofia Greve e Maria Dominguez


Um jornalista com muita história para contar! Esse é João Eça, ex-repórter e hoje editor de Polícia do Jornal Massa!. Formado há pouco mais de dois anos pela Facom, já soma vasta experiência. Durante os cinco anos que esteve na faculdade, circulou por diversos veículos de comunicação. Desde a Rádio Sociedade, onde permaneceu por 2 anos, até o Jornal A TARDE, passando também pelo Itapoãn Online. Depois de formado, trabalhou no site Teia de Notícias e no Jornal da Metrópole, antes de ser admitido como repórter do Massa!, onde está desde setembro de 2010. Por ter entrado na equipe um mês antes de o jornal ser lançado, acompanhou toda a trajetória do Massa!, e pôde percorrer do esporte ao entretenimento até consolidar-se na editoria de Polícia. Hoje, João está satisfeito com seu trabalho e se declara apaixonado pelo projeto do jornal. A única questão que o incomoda é não poder mais ir a rua com tanta frequência em relação a quando era repórter. Por isso, sempre que pode, faz pauta e apura notícia. Para ele, o fundamental para qualquer jornalista é ter “alma de repórter”.

Qual a sua rotina produtiva, desde a hora que chega até a hora que sai da redação?

Pensem bem se vocês querem ser jornalistas, pois nós não paramos! Eu não tenho hora pra entrar nem pra sair. Mesmo que esteja em casa, estou pensando no jornal. Eu sou muito apaixonado pelo que eu faço. Eu chego por volta de 12h, 13h, mas ontem, por exemplo, saí meia noite daqui. A editoria de Polícia não é uma coisa fixa, não temos uma receita pronta. Todo dia é um novo aprendizado e as pautas vêm de onde a gente menos espera, mas também pelos meios tradicionais. Temos repórteres de manhã e de tarde. Apesar de o espaço do Massa! ser bem pequeno a exigência daqui é de apuração mesmo! O repórter sai daqui uma hora e só vai voltar às sete. A apuração é incessante, nunca se esgota. Com o tempo, o Massa! criou muitas fontes em delegacias, e isso não existia antes pois o jornal ainda era muito novo. Então a gente liga para as delegacias e para os contatos policiais. Olhamos sites de notícias. Existem muitos sites que são noticiários policiais. O A TARDE tem, Correio* tem, o Bocão tem. Olhamos sites, vemos televisão, ouvimos o rádio, tudo de uma vez só. As pautas podem vir de qualquer lugar. Os leitores podem também nos informar se presenciarem alguma coisa. As informações chegam de todos os lugares. Mas decidimos o que interessa para nós é: o Massa! é um jornal popular da terceira maior cidade de um país subdesenvolvido, um país de Terceiro Mundo, mas mesmo assim, o que é notícia aqui é notícia no The New York Times. O que interessa ao público são as histórias humanas, como em qualquer jornal do mundo. O leitor quer boas histórias, que tenham emoção e um lado humano.

Hoje o jornal ainda mantém o seu projeto original?

Acho que sim, ele está cumprindo o objetivo do que foi planejado.


E quais são esses objetivos?
O jornal foi lançado para atender as necessidades das classes mais populares, dos bairros populares. Divulgar o que a grande mídia não divulga. Todo dia temos notícias voltadas para esse tipo de público. É a famosa classe C que o pessoal não cansa de falar. São pessoas que têm histórias boas e ruins que não são lembradas de modo que eles não se sentem vistos em nenhum jornal. É um motivo de orgulho para eles serem reconhecidos em um jornal. Todos os dias temos pautas de esportes mostrando o futebol da população, mostramos também serviços e empregos, problemas de bairros populares, questões de segurança. Nem sempre noticiamos coisas negativas, há também reportagens positivas. O papel do Massa! é contar histórias humanas.


Seria então o famoso “dar voz ao povo”?
Essa expressão soa muito populista, mas seria isso sim. O Massa! dá a voz a qualquer pessoa que tenha alguma coisa que queira divulgar. Qualquer coisa que aconteça, principalmente nos bairros populares, nós divulgamos. É um jornal acessível. Temos espaços para denúncias, assim como podemos colocar uma notinha de divulgação de alguém que venda artesanato, por exemplo. Se você for ler, sempre tem espaço.

Então, o real peso desses discursos de “dar ao leitor o que ele quer” e “dar voz ao povo”, difundidos pelo Massa!, na hierarquização das notícias é...?
O povo gosta de se ver no jornal. Aqui na Bahia, nos bairros populares, as pessoas não liam jornais, pois não se viam neles e não tinham notícias do seu interesse. Um cara que mora em Periperi não vai querer comprar um jornal que não fala do bairro dele, que não tenha matérias do seu interesse, que não retrate a sua vida. Hoje, você passa no ponto de ônibus e está todo mundo lendo, virou hábito.

O uso das gírias é uma forma de inserir esse leitor no produto?
Sim. Isso é uma estratégia de aproximar o público a partir do seu modo de falar. As pessoas falam “ônibus” ou “busu”? Isso é assim do rico ao pobre. A gente não inventa nada. Tem várias outras expressões como essa, por exemplo: “Vou sair com minha esposa” ou “vou sair com minha mulher”? Se o povo fala “mulher”, por que colocar no jornal “esposa”? Também tem o “tá barril”. Tem gente que não gosta, mas isso é um risco diário que a gente corre. Só não dá para ser grosseiro, ofensivo. É preciso ter bom senso.

E as cores da editoria? Porque sempre o vermelho e o preto?
Muito antes do lançamento do Massa!, já existia todo o planejamento do jornal. Desde o marketing até a parte gráfica. O repórter só entrou depois, por isso eu digo que sou “pequeno” para poder falar de forma ampla sobre isso. Mas o que a gente ficou sabendo é que houve grupos de estudos com leitores para saber o que eles queriam ver no jornal, inclusive as cores preferidas para cada editoria. Tudo que é feito no Massa! é pensado. É um projeto planejado, tem consultoria.

Como você define a linha editorial do jornal?
(Pensa um pouco) Linha editorial?... Não me façam responder essa pergunta, não... (risos)

Você falou que os policiais também são fontes. Com é a relação entre vocês e a Polícia? Vocês têm acesso aos boletins de ocorrência? Há alguma recomendação?
Tem delegacias que o acesso é mais rápido. A gente chega e tem uma oportunidade maior de falar com o delegado ou o chefe de investigação, que é o policial que coordena a investigação logo abaixo do delegado. Tem alguns policiais que são mais acessíveis, por questão de afinidade mesmo, relação humana. Tem delegados que, por uma série de questões - não gostar da imprensa, ter se chateado com algum jornalista - já generalizam e não dão informações a ninguém. Nesses casos o trabalho é maior. A apuração é mais difícil e o B.O é o passo inicial. A partir dele, se sabe o que aconteceu e quem são os envolvidos para poder ouvi-los. Embora seja obrigação, isso nem sempre é feito no jornalismo policial. As pessoas só ficam com a versão da polícia. Boletim de ocorrência é um documento público. Todos podem ter acesso, apesar de alguns acharem que não.

Quais os critérios de noticiabilidade que vocês priorizam na construção das notícias?
Valorizamos as histórias humanas. Além disso, tem a questão da proximidade com o público. Priorizamos os fatos de Salvador e de algumas cidades do interior da Bahia. O Massa! também prioriza destacar as cidades que temos grande índice de leitores. Assim como o jornal do Rio de Janeiro prioriza os acontecimentos de lá. Mas sempre que podemos, noticiamos acontecimentos nacionais também. Alguns casos ultrapassam fronteiras. Na semana passada, noticiamos a história de um idoso que praticou sexo com uma égua. Pro Massa!, a notícia caiu como uma luva. Noticiamos também a morte de uma criança por uma garota que aprendia a dirigir, mesmo sem habilitação. São histórias humanas. Dizem que a gente explora o sofrimento alheio. Mas não foi a gente que matou, o fato aconteceu. O que sai no jornal é só 1% da violência de Salvador, tudo é um retrato do que acontece. Se você juntar o Correio, Massa! e o A Tarde, Bocão, Na Mira, ainda assim não conseguimos cobrir 5% das misérias que acontece na cidade. É um retrato do que acontece.

Percebemos que vocês valorizam bastante o insólito e as curiosidades.
Quanto mais diferente, melhor. Todo dia tem traficante preso. Mas quando surge uma história dessa, como um idoso que faz sexo com uma égua, todo mundo se interessa em ler, gente de todas as classes sociais. O negócio é o tratamento que a gente dá para as histórias. Tem o lado engraçado da história, mas trouxemos informações também. Ouvimos a opinião da população na rua, um veterinário e um urologista, que explicaram o que é zoofilia e os riscos à saúde. Além do lado pitoresco, vimos ali uma oportunidade de dar informações sobre saúde pública.

Mas por que os outros jornais - Correio*, A TARDE, Tribuna - não noticiaram o acontecimento do idoso e a égua, que chegou a sair na capa do Massa?
Na certa os outros não souberam do acontecimento. Aí é uma pergunta para os outros jornais. Não dá pra saber o lado dos outros. Sei que no Massa! a história foi noticiada pois é curiosa, é humana, desperta a atenção do leitor.





Então é o interesse do público que prevalece aqui?
Conta tudo! Conta o interesse público e o interesse do público. Em nenhum jornal conta apenas o interesse público. Apenas a BBC de Londres que é financiada e pública, então eles podem ir por onde eles querem, sem levar em consideração o lado comercial. Como os jornais são empresas privadas que visam o lucro, há o interesse público e o interesse do público. Na matéria do idoso do jegue, por exemplo, o interesse público está nas informações sobre a saúde pública. O interesse do público será o lado pitoresco do acontecimento. E isso acontece em todos os jornais. Vamos tirar como exemplo Nicole Bahls. Não há interesse público nenhum nas matérias sobre ela, mas todos os veículos de comunicação continuam falando sobre ela. É questão de audiência. Dizem que o Massa! é mais voltado pro ‘povão’ e o A TARDE tem um público mais esclarecido. Mas se você for ver as notícias mais lidas do A TARDE, muitas delas serão sobre o Big Brother. Na Folha de SP também sempre há algo sobre BBB, A Fazenda ou entretenimento entre as mais lidas. No G1, entre as 5 mais lidas outro dia, 2 eram sobre Ângela Bismarck e a sua saída em A Fazenda.

Então vocês valorizam o entretenimento (matérias sobre Nicole Bahls e A Fazenda, por exemplo)?
Não é que a gente valorize, mas a gente não deixa de noticiar.

Sair sempre na capa (100% das contracapas do Massa! no período analisado foram dedicadas ao programa A Fazenda) é valorizar.
Realmente tem que levar em consideração a questão da audiência. Não vamos noticiar tudo que dá audiência, mas algumas coisas sim.  As principais editorias do Massa! são Polícia, Esporte e Entretenimento e todas produzem material que pode ir para a capa.

Você poderia dar algum exemplo de uma notícia que daria audiência, mas vocês não publicariam?
Aí você me pegou (risos).

Colocar sempre uma mulher seminua na capa tem alguma relevância? Observando o jornal, percebemos que no interior não há praticamente nenhuma reportagem sobre ela, há somente uma pequena nota. Como isso se justifica?
As mulheres estão na capa por que chama mais a atenção. As pessoas veem a capa e compram. Jornal popular é assim. Mulher vende. Tem estratégias para as pessoas lerem. Se você não coloca esses assuntos, ninguém vai ler.

Há algum assunto tabu que não pode ser noticiado?
Não, nenhum jornal tem assunto tabu. Todos os temas podem ser noticiados, o negócio é a forma de tratar os acontecimentos. Voltando ao caso do idoso e do jegue, nós poderíamos ter feito um sensacionalismo horrível em cima do acontecimento, poderíamos ter sido grotescos. Mas aí entra em questão o respeito ao público e a forma de tratar um tema. A informação vem em primeiro lugar.

Percebemos que no Massa! os assuntos que você mesmo disse ser de interesse público convergem bastante para os serviços e deixa de tratar temas como política e educação. O jornalismo do Massa! tem convergido para um jornalismo de serviços?
Também temos notícias sobre educação, economia popular, concursos.

Tudo é voltado diretamente para a vida do leitor, então?
Se você for ver o jornal O Globo também é assim. Um tema como a bolsa de valores, que tem de ser estudada durante muitos anos, é um tema complicado, temos que tornar isso mais acessível ao público. O Massa! não tem um público que tem formação escolar completa, eles ainda buscam cada vez mais educação. Qualquer dinheiro que ganhe, esse público se interessa em investir em educação. Logo, se formos tratar da bolsa de valores, não sei se eles se interessariam. Vamos tratar isso de forma que eles entendam. Nossa estratégia é de formação de leitor mesmo. A ideia é fazer com que a partir daqui eles se interessem em ler sobre outros assuntos. E como é que você vai fazer esse povo ler jornal? Falando da vida deles, falando da realidade deles.

É possível dizer que o Massa! é produzido para um público específico? Qual é esse o público? O Correio* diz que os seus leitores são muito variados e estão da classe A à D.
Todo veículo de comunicação tem seu público específico. Essa seria uma pergunta para quem planejou o jornal. Eles informariam com precisão quem é o público do Massa!. Eu posso falar o que eu acho. É uma opinião que não sei se é uma opinião do jornal. O público do Massa! está claro, esse é um jornal voltado às classes populares, não vamos dizer que esse jornal é voltado para a Bahia inteira, entre todas as classes. Mas, claro, isso não impede que todos leiam, até gente da elite. Médicos fazem questão de dar entrevista ao Massa!, pois sabem que aquilo vai interessar e ser útil ao público que necessita de informação. O Massa! é voltado para a classe C, mas não impede que a classe A também leia.

Qual a justificativa para todas as capas do Massa! conterem temas que variam entre violência e entretenimento, além da foto de alguma mulher seminua?
Essa seria uma boa pergunta para o editor chefe. As principais editorias do Massa são Esporte, Entretenimento e Polícia, pelo fato de esse ser um jornal popular. Tem gente que critica o jornal, mas sei que não passam da capa. Tem muita violência, mas todo dia tem matéria sobre serviço, também. A discussão sobre o Massa! é uma discussão sobre o jornalismo inteiro, essa mistura entre jornalismo e entretenimento.

E qual seria a relação entre o jornal ser popular e as editorias carro-chefe serem Entretenimento, Futebol e Polícia?
O jornal tem que ter uma manchete quente para ir para as bancas e vender. Mas é melhor vocês perguntarem ao editor chefe do jornal. Ele poderá dizer que isso é uma estratégia de venda do jornal, pelo pouco que eu posso falar. Falo de forma bem rasteira. No Rio de Janeiro, há jornais que têm cinco capas, uma para cada região.
Qual a sua avaliação sobre o mercado jornalístico de Salvador?
Todo mundo critica o jornalismo, mas toda profissão é difícil. Hoje em dia, só engenheiro está saindo da faculdade e arranjando emprego. A dificuldade do jornalismo é a falta de emprego formal, com carteira assinada. Às vezes, paga muito pouco quando é com carteira. Tem muito trabalho, muita coisa para fazer - assessoria, por exemplo -, mas pouco emprego. O mundo todo está em crise, por isso é preciso aproveitar as oportunidades. Tem que se dedicar, ler bastante, fazer cursos... Mercado tem, mas não é fácil.

O que você pode dizer sobre o Jornalismo que está sendo praticado atualmente?
Outro dia uns estudantes da Jorge Amado me convocaram pra dar uma entrevista. A aluna me disse ‘vou mandar as perguntas por e-mail’. Eu respondi dizendo que se deve evitar a entrevista por e-mail. Eu atendo sem problemas, eu estou disponível. Tem fontes que você realmente não tem possibilidade de falar fisicamente. Mas o ideal é ter o contato físico. O jornalismo de hoje tá ficando cada vez na redação e as entrevistas estão sendo feitas por telefone. Se vocês encontrarem uma matéria ou reportagem mal feita pode ter certeza que foi um problema de má apuração. Ficando na redação você não consegue nada, principalmente na editoria de polícia.

Como você vê o papel do jornalista?
Eu acho o jornalismo uma das profissões mais lindas. Eu sou apaixonado. O jornalismo tem uma função social muito importante. Hoje em dia as pessoas estão querendo cada vez mais informação em menos tempo. Se não tem o jornalista que leve essa informação, as pessoas não têm como saber o que se passa no mundo, na sua cidade ou no seu bairro. Cada vez mais o jornalista tem essa responsabilidade. O público confia nele. O jornalismo também se vale de um caráter de denúncia. Às vezes um filho está há meses querendo internar a mãe no hospital e não tem vaga. Quando ele recorre aos meios de comunicação para denunciar, tem a possibilidade de ser atendido no dia seguinte. Isso é um exemplo mínimo da força que a gente tem. O jornalista tem que ler bastante para ser um bom profissional e ele precisa achar que sabe menos e não ser tão preconceito. Não pode chegar com a opinião formada sobre as coisas. Nossa função é perguntar, ouvir mais as pessoas. Você pode se fechar tanto na sua bolha, tanto naquilo que você acredita que você não dá vez ao outro de te enriquecer. Essa é uma das maravilhas do jornalismo. O trabalho de repórter é muito rico nesse sentido, você entra em contato com os mais diversos tipos de pessoas e histórias.

“Na minha opinião, a política editorial de antes não existe mais” | Lorena Caliman

Alexandre Galvão, Carol Lemos, Lucas Gama


Foto: Arquivo pessoal



Lorena Caliman, ex faconiana e atual repórter da editoria de cidade do Correio*, em entrevista, fala sobre as estratégias de marketing do jornal, interesse público, interesse do público, a dinâmica na redação de um grande jornal e comenta sobre a tentativa de mudar a visão da audiência sobre a linha editorial do produto jornalístico. 


Na visão de vocês, o Correio concorre diretamente com qual outro jornal? 
Na minha visão, no momento, a concorrência direta é o “A Tarde” e o “Tribuna” também.


Podemos notar que, após a reestruturação do jornal, vocês tem seguido uma linha mais popular. Você concorda? 
Concordo. O jornal está mais popular do que popularesco, digamos assim. É bem informativo e o interesse é contar histórias, no caso. É um popular completamente diferente do Massa!.


Vocês têm um público alvo específico? 
No meu entendimento, o jornal tenta alcançar o máximo de pessoas de todas as classes. Tanto a pessoa de classe mais alta quanto a pessoa de classe mais baixa.


Há como chamar a atenção da classe “C” e “D” sem ser sensacionalista? De que forma o Correio* faz isso?
Sim, com certeza. Inclusive, esse é o propósito das matérias na editoria que eu trabalho, porque o interesse maior é prestar serviço de certa forma à população. Informar puxando pra uma coisa que seja interessante para as pessoas, que chame a sua atenção, mas sem ser sensacionalista. A gente evita isso.


A venda de cds junto com o jornal é uma clara jogada de marketing bem sucedida. O aumento da tiragem do jornal é um exemplo disso. Qual influencia disso dentro da redação do jornal?
Foram três edições, né? Dentro da redação o que muda? No dia anterior, o fechamento é mais cedo até porque o aumento da tiragem influencia no horário, a gente reestrutura os horários de cada um, todo mundo chega mais cedo. No dia seguinte, as três vezes que isso aconteceu, nós tivemos uma matéria tratando sobre a venda, pra repercutir sobre a venda do produto.


Essa medida seria uma tentativa de agregar mais público ao jornal?
Eu, Lorena, vejo isso. Mas de certa forma é um jeito de fidelizar o cliente. Um colega meu foi entrevistar o pessoal na rua na hora da venda e ele perguntou para um vendedor de jornal o que ele achava da venda de cds. Ele respondeu que era muito interessante, pois muita gente ia comprar o jornal nesse dia, pessoas que não são clientes do cotidiano, com interesse no cd, mas depois ela vai acabar lendo o jornal, é um momento de fidelização.


Interesse público ou interesse do público? Dentro do Correio, o que importa mais? E pra você enquanto jornalista, o que é mais relevante? 
Para o Correio*, até onde eu sei, o interesse público, importa mais, mas, também, puxando pelo interesse do público. Enquanto jornalista, o mais relevante é o interesse público mesmo. Sempre buscar os vários lados da notícia, sempre questionar. Se o governo, por exemplo, divulga uma informação, nós não vamos simplesmente dizer que ele divulgou; nós vamos, também, ver qual a opinião de pessoas envolvidas sobre isso. 


Antes da reformulação do Correio*, havia uma política editorial muito clara. Ainda hoje existe essa linha bem definida? 
Na minha opinião, a política editorial de antes não existe mais. A editoria de cidade é muito independente dessa coisa política, sabe? Eu não acompanho bem a produçãodas notícias de política, mas essa política editorial carlista não existe. Há uma tentativa muito grande de se desvincular disso, na verdade.


Às vezes na capa do Correio* tem uma manchete grande e quando abrimos o jornal no 24h o texto está reduzido. Por que isso acontece? 
Não é sempre, né? Muitas manchetes também são do Mais. Quando você abre o Mais, se a matéria está ali em destaque é por um motivo. Por exemplo, a história do assassinato do francês em Stella Maris foi pro 24h, pois não se tinha ainda muita informação, mas estava na capa porque chamava muito a atenção. Então, mesmo ela sendo uma nota de 24h, pelo fato de ter chamado tanto a atenção, ela foi uma manchete.


Como funciona a seleção de pautas no Correio dentro da editoria de Cidade?  
Tem aquelas coisas básicas sobre o que está acontecendo no dia e tem também as pautas que a gente faz semanalmente, uma programação de coisas que podem ser pauta. Isso para trazer uma manchete diferente sobre qualquer assunto, não tem uma pauta específica. Essa semana mesmo a gente falou sobre os assaltos a ônibus no São João. Acho que varia muito.


As notícias sobre Salvador estão sempre nas páginas do Mais e do 24h. Como é a decisão do que vai ficar no Mais e o que vai pro 24h? Qual o critério utilizado? 
O 24h é aquela coisa mais rápida. Ele abre com uma notícia local, depois tem Brasil, Variedades, etc. A página 3, abertura do 24h, em geral é sobre cidade, mas pode ser sobre qualquer coisa. O Mais, geralmente, é uma coisa que possa crescer. Uma passeata de professores, se for se limitar somente à passeata e não tiver nada mais, for mais factual, vai pro 24h. Agora, se for uma passeata que repercuta a união dos professores estaduais com os professores da Ufba, já é uma coisa maior. Se falar das reivindicações ou de novidades nas reivindicações, alguma novidade na proposta do governo, isso já é algo maior em que se possa explorar outros assuntos e que ganhe uma dimensão maior, aí vai pro Mais. 


Há alguma previsão de criação de uma caderno de política? 
Que eu saiba, não. Mas talvez agora com as eleições.


O Correio costuma dizer que estrutura suas notícias com base no new jouralism. Até que ponto isso influencia na hierarquização do texto? Como os critérios de noticiabilidade de cada notícia dialogam com esse tipo de texto? 
O propósito é contar história então o critério é sempre o diferente, o inesperado. Também tem essa coisa da escolha de um personagem para contextualizar e não deixar o texto ficar impessoal. A ideia é sempre trazer a história de alguém e onde o que aconteceu se encaixa e mexe com a vida da pessoa. Não é aquela coisa deslocada, não é um relatório do A Tarde, quanto a forma; você vê bem a diferença no esquema do texto.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

'' Jornalismo inteligente é aquele que atinge todas as classes'' | Priscila Melo

Carlos Eduardo Brandão, Estela Marques e Renata Pizane



Priscila Melo, 28 anos, é formada em jornalismo pela FTC e atua há sete anos no Jornal Tribuna da Bahia. Começou como estagiária, já foi repórter e atualmente ocupa o cargo de editora do Caderno Cidades, tendo passagens por veículos como TVE , Band-Ba, Rede Record e ainda assessorou o governo de Paulo Souto por dois anos e meio. Em entrevista, ela contou um pouco do seu trabalho no jornal,  rotina produtiva, linha editorial e comentou sobre o mercado jornalístico em Salvador.

Como é sua rotina?
Eu quando chego, a primeira coisa que faço é sentar, pegar todas as pautas do dia, inclusive as pautas que foram passadas por mim no dia anterior, e ver o que está acontecendo. Depois eu vou ler matéria por matéria, corrigir problemas em matérias - o que é normal, acontece com todas -, chamo e falo “sua matéria deveria começar assim, assado”. Faço o papel de chefia de reportagem, por exemplo, ligar pra uma equipe que está cobrindo um factual, derrubar a pauta, mandar ir pra outro local. Pego o mapa, vejo quantas pautas vou ter, quantas páginas vou ter, o que vai entrar aonde. E depois tem o fechamento, que a gente vai sentar e lidar com tudo isso: dar o título, dar o subtítulo, escolher foto, por a legenda... Tudo isso é trabalho do editor. O texto também, quando necessário, dou uma mexida.

Qual seria a linha editorial da Tribuna?
A linha editorial da Tribuna, acho que é hoje a linha editorial do Correio e do A Tarde: ir atrás da notícia. Acho que a notícia passou, passa por transformações e isso vocês estudam na faculdade. Por exemplo, eu não sei se vocês se lembram, se já estavam na faculdade na época de Ricardo Noblat. Então, ele trouxe uma coisa maravilhosa que tinha em poucas matérias, que é humanizar a matéria. Como humanizar a matéria? Trazendo personagens como foco principal da matéria. Então assim, existe essas mudanças, porque antigamente não tinha muito isso. Claro, existia humanização da matéria, sim, mas muito nariz de cera. O que a notícia tem que fazer hoje? Se aprofundar mais na sua vida. Você quer saber o que acontece na cidade, mas você não quer SÓ saber o que acontece na cidade. Você quer saber o que afeta sua vida. Por isso que se você perceber, vou falar da Tribuna, já tem algum tempo que a Tribuna se readaptou pra dar sempre matéria de saúde, de comportamento, de tecnologia porque mexem com sua vida. Você tem que buscar um diferencial e um diferencial é uma matéria de comportamento. (...) A notícia muda, ela se readapta pra vida da gente. Existe uma mudança de comportamento e todo mundo precisa se readaptar, principalmente o jornalismo, que é o que passa a informação. 

E seu concorrente direto?
Hoje? Todos os jornais são concorrentes. Se você for falar de lugar, o Correio em primeiro, o A Tarde em segundo e o Tribuna.

Qual é o público-alvo do Tribuna?
Público-alvo da Tribuna? O público-alvo da Tribuna é todos os públicos. Porque assim, se você pegar os leitores mais antigos da Tribuna, é um público do tipo A, ao mesmo tempo que é um público B, C, D. Tem uma coisa da linguagem, a linguagem é acessível pra todo mundo. Se você fala uma língua pra um só, você ta querendo atingir um público só. Não pode fazer isso.

Numa pesquisa recente, foi descoberto que o jornal é lido pelo público, em sua maioria, das classes A e B, não das C e D como estimado. Isso surpreendeu?
Por que pelo público A e B? Política. A Tribuna é muito lida por políticos, pelas secretarias. Muito, muito mesmo. Até surpreendeu um pouco a gente, porque se você pegar a linguagem da Tribuna, é uma coisa popular. Na verdade, o jornalismo inteligente é aquele que atinge a todas as classes.

Vocês mudaram a linha editorial, a seleção de notícias, impactou de alguma forma?
Isso não impactou diretamente, mas se há uma readaptação, há. As pessoas estão cansadas de ver matérias de violência, violência, violência... É tanta violência que você pega o jornal e dá de cara com violência e “ah, tenha dó!”.

Como você afirma que as pessoas estão cansadas de ver “violência, violência, violência” quando jornais populares que mostram muita “violência, violência, violência” vendem muito?
Olha, eu não vou falar pela empresa Tribuna da Bahia, mas particularmente. Eu vou para questão cultural e social. Isso é outra coisa, entendeu? A gente está num estado que estamos acostumados a ver música, informação, tudo assim: a gente dá o que o público gosta. O público gosta de ser educado, de ter educação. Então, infelizmente, nossos governantes não dão educação, entendeu? E o que há de pior de revista de fofoca, o que há de pior de jornalismo, o que há de pior de televisão, de jornal popularesco - não é popular, é popularesco, de forma pejorativa mesmo... Porque quando se fala popular, não significa que você está vendendo coisas ruins, porcarias, explorando o sentimento alheio. E quando a gente fala de popularesco, a gente fala de tudo isso que falei. É preciso ter inteligência pra acompanhar a mudança de comportamento da sociedade. Você quer ler o que afeta sua vida, saúde, o dia-a-dia, denúncias, ou você quer ler tipo “fulaninho que matava fulaninho”? Mas factual da cidade, que não explora o sofrimento do outro, pode ir pra capa. Vai, como o caso da menina que o carro morreu, acabou descendo a ladeira e atingido algumas pessoas na fila da clínica.


Por que o jornal tem duas editoras de Cidade?
Todo jornal tem funções separadas: chefia de reportagem, redator e editor. Na Tribuna, é 3 em 1. Por isso que a gente tem duas pessoas na chefia da editoria de Cidade. Aqui não tem redator e chefe de reportagem à tarde; eu e Carol (Carolina Parada …, também editora de Cidades) temos essa função. Aí, nos outros jornais tem a editoria de segurança, tem o editor de segurança, e aqui não tem editor de segurança. A gente que fecha segurança. Então, são muitas páginas, muitas tarefas pra duas, por isso que a gente divide isso. Eu assumo mais essa função de chefe de reportagem, por conta do horário, e ela fecha segurança.


A gente percebeu que o jornal tem o Caderno de Cidades e tem na primeira parte do jornal uma editoria de Cidade, na página 7. Como funciona?
A página 7, como por exemplo na matéria de hoje (26/06), não é de Cidades. É que mudou a bandeira, a bandeira era segurança.

Então o Cidades da página 7 é segurança...
É, é segurança. Agora, tem um detalhe: você ta falando da página 7 você ta fazendo um estudo do jornal de hoje. Geralmente, segurança vai pra página 14, 15, então vai depender do mapa; o mapa depende dos anúncios, dos cadernos do dia, da quantidade da página, e segurança não é página 7. Na realidade, ela é uma página preta e branca e a gente não pode colocar preto e branco nem na 8 nem na 9, que são páginas coloridas. A gente não vai botar bagaço de corpos numa página colorida. No caso das seguintes, é questão de diagramação.

Mas não é segurança, exatamente. Sobre o caso do estupro das gêmeas, próximo a Salvador, no dia 8 de junho, uma das gêmeas foi estuprada pelo pai, morreu e a matéria do enterro saiu com destaque na página 7, com a editoria de Cidade.
Não é que tenha saído na editoria de Cidade, mas veio com a bandeira de Cidade.

É isso, por isso que nos confundiu...
Se você olhar, eu não sei o A Tarde, mas o Correio não tem bandeira de segurança. É 24h. Cidade é 24h, está tudo junto. Tudo misturado, no mesmo pacote. É uma página com as notícias de polícia..

Qual critério justifica a localização de Política nas primeiras páginas?
Todos os jornais colocam política nas primeiras páginas. É política dos jornais, enfim. A Tribuna hoje, se você perceber, em questão de discussão de matéria e notícia de política, é mais forte que o Correio e o A Tarde. Então, não é porque tem que começar com política. O Tribuna sempre começou com política. Inclusive, quando você abre o jornal, a primeira página tem uma coluna forte, a Raio Laser. Coluna política tem sua força. É forte, é comentada no cenário político, ela está num local, digamos assim, de privilégio. Ela está num local privilegiado do jornal porque ela tem um contrato de leitor. Por ser uma parte do jornal mais... mais assim... “elitizada”, “intelectualizada”... é um público destinado, é a leitura que é forte. 

Como fica a relação do portal do Tribuna com o impresso? 
A redação é uma só. Quando acontece um factual, um está ligado ao outro. Por exemplo, hoje teve um caso de um criança que estava em casa e sem querer derrubou a vela, que incendiou a casa. Pra internet, tem lá o factual “sem querer uma criança blá blá”. Amanhã, a gente vai ter uma matéria mais produzida, falando dos riscos de acidentes domésticos com criança de férias em casa. De modo geral, o factual vai pro portal, no dia do acontecimento, e uma matérias mais produzida sai no impresso do dia seguinte.

O fato de o jornal não circular aos domingos interfere na rotina produtiva?
(risos) Desde que eu entrei, o Tribuna circula o final de semana. Acho que é por uma questão de anúncio; tem poucos anúncios no domingo e aí não justifica o gasto pra rodar, entendeu? Mas a redação trabalha sábado, normalmente.

Como foi, por exemplo, a cobertura sobre a greve dos professores estaduais?
Os jornais pararam um pouco de dar. Já são 75, 76 dias... O público vai ler? Seja sincera. Os professores entraram em greve. Os professores dizem que continuam em greve. Amanhã, numa nova assembleia, os professores decidem continuar a greve. Amanhã, eles dizem que o impasse continua. Você ta lendo essa matéria? Você vai ler essa matéria? Eu acabei de derrubar essa matéria - pronta, duas laudas. Teve a assembleia hoje e decidiram continuar a greve. Tem alguma novidade pro leitor? Nenhuma.