quarta-feira, 27 de junho de 2012

“O jornalismo se tornou empresarial, mas ele ainda pode ser um jornalismo combativo independente” | Hieros Vasconcelos

Daniel Oliveira, Pollyanna Couto e Thaís de Jesus


O soteropolitano Hieros Vasconcelos Rego tem 26 anos e formou-se em Jornalismo pela Faculdade Integrada da Bahia (FIB), atual Estácio-FIB. Durante a graduação Hieros estagiou no jornal Tribuna da Bahia e depois na TVE. Posteriormente retornou ao Tribuna da Bahia como repórter, onde trabalhou nas editorias de polícia e local. Em 2009, ano em que concluiu a graduação, passou a trabalhar na editoria Salvador do jornal A Tarde. Trabalhou ainda como freeler para o jornal Extra do Rio de Janeiro e atualmente está na editoria Salvador do A Tarde.


Como foi sua formação acadêmica?
A graduação foi uma experiência muito boa no âmbito da comunicação, porque eu aprendi a comunicação de um modo geral, as teorias me ajudaram a expandir a mente pra não entender só de jornalismo. Depois que conheci o jornalismo prático, eu me desiludi e acredito que todos vocês vão se desiludir, porque você vê que nós fazemos parte de uma empresa. Mas pela comunicação em si, pelo fato de eu aprender a me comunicar, de entender um pouco as pessoas, isso foi muito proveitoso.

Como é sua rotina de repórter do A Tarde?
Eu entro às 8h30 todo dia, teoricamente eu tenho que sair 15h30, porque o turno é de 7hs de trabalho, uma hora de almoço. Na teoria, porque na prática todo mundo sai da redação umas seis, sete horas da noite. Às vezes a gente chega 8h30 e sai 21h.

Você recebe pautas prontas ou tem que elaborar?
Quando chego na redação meu chefe de reportagem fala comigo e me mostra a pauta no sistema.  Todo repórter tem uma pauta. Eu recebo uma pautinha, não recebo uma pauta toda elaborada. Ele (chefe de reportagem) chega no dia e faz uma pauta. Durante o dia a gente vai conversando e vai elaborando a pauta, trazendo novas ideias para a matéria.

O fator tempo interfere na elaboração da sua matéria?
O tempo Influencia. Uma matéria que eu tenho que fazer em um dia, não vai ser a mesma coisa que uma matéria que posso fazer em dois dias. A matéria de dois dias vai ser mais elaborada, eu vou buscar mais fontes, eu vou tentar contrapor mais.  A matéria de um dia pode não ficar tão boa e no dia seguinte eu posso olhar para a matéria e perceber que faltou algo, que poderia ter escrito de uma maneira diferente. Acontece. Ninguém é bom todos os dias. É muita mediocridade você dizer que vai ser bom todos os dias.

Na apuração das matérias que critérios você utiliza para selecionar as fontes ou elas já estão listadas na pauta que você recebe?
Geralmente os chefes de reportagem dão as dicas, mas você tem que ter uma noção com quem você vai conversar. Você tem que buscar fontes que deem credibilidade a sua matéria. Por exemplo, em uma pauta sobre a ilegalidade da greve dos professores estaduais, eu vou conversar com uma pessoa que seja idônea, com um cientista político ou então com um advogado constitucionalista que pode me falar de legalidade e ilegalidade de greve. Eu busco as minhas fontes seguindo as dicas deles (chefes), mas se eu conversar com uma fonte que meu chefe indicou e eu achar que a fonte não supriu eu vou buscar outra fonte. Só isso.

 Você acha que a editoria de Salvador tem um ritmo de trabalho mais acirrado do que as outras editorias do A Tarde?
Com certeza. A equipe de Salvador é a que mais trabalha. O Caderno de Salvador é o caderno chefe do jornal. Então requer mais atenção. A gente precisa saber de tudo o que acontece na cidade para depois de tudo selecionar o que é mais notícia, enquanto que, por exemplo, em Política não. Política já tem uma pauta que vem de ontem, algo que ainda está repercutindo. Então você não vive de fatos que vão acontecer a qualquer momento. O caderno Salvador exige mais tempo de você mesmo na redação. Isso é mais cansativo, por exemplo, às vezes você tem que acordar 5hs da manhã pra ver o que vai acontecer 5h30. Em Política não, você já tem a sua pauta que foi elaborada ontem, você sabe que hoje não vai acontecer uma grande diferença naquele assunto. Então você segue o horário mais a risca. 

Como você define a linha editorial do A Tarde?
Acho que ainda em Salvador o A Tarde é um jornal que tem uma linha editorial mais desagregada da política local. Mas de certa forma, a política editorial do A Tarde está um pouco manipulada pelos empreendimentos imobiliários. Mas em relação à política local, como se vê a política, acho que ela consegue uma idoneidade. Eu gosto da linha editorial do A Tarde porque tem uma linha de opinião mesmo social, uma linha de opinião ambiental, mas ainda está presa a algumas questões de empresa mesmo, de interesses empresariais. Mas eu acho que é uma linha editorial que ainda tem um cunho de serviço social muito bom aqui na Bahia, em Salvador.

Como você lida com a política editorial do jornal?
Querendo ou não eu sei que estou em uma empresa. Aquela visão de jornalismo romântico de que vou escrever do jeito que eu quero para o público, existe dentro de mim como pessoa. Mas eu sei que por estar dentro de uma empresa, uma hora ou outra, eu vou ter que impor limites e saber lidar com essa questão, vou ter que mediar.

Alguma vez você já teve que fazer alterações no seu texto por causa da linha editorial da empresa?
Já aconteceu, mas não de uma forma tão escancarada como aconteceu com meu colega Aguirre Peixoto, que foi demitido. Já chegaram para mim e disseram “Hieros você sabe que aqui no jornal a gente não pode falar mal disso, vamos colocar isso no intertítulo, vamos tirar isso do lead, vamos descer pro sublead,” e eu faço um tipo de mediação “tá vamos descer pro sublead”. Mas censura não.

No seu caso também foi em função das empresas imobiliárias que patrocinam o A Tarde?
Eu juro que não lembro. Mas foi algo relacionado com os empreendimentos imobiliários. Alguém que era um dos grandes patrocinadores e que tinha boas páginas de publicidade no jornal.

Qual é o público-alvo do A Tarde?
Por enquanto o A Tarde está meio sem público-alvo. Mas a maioria dos leitores, eu acredito, que seja de 40 anos pra cima, pessoas de classe média e também alta. Antes da crise que o jornal passa atualmente o público era das classes A, B e se duvidar até C. Isso antes do Massa e do Correio*. Hoje em dia ele precisa escolher um público alvo pra se manter empresarialmente no mercado, se firmar novamente.

 Qual é o principal concorrente do A Tarde?
Depende do tipo de concorrência que estamos falando. Em concorrência comercial o Correio* realmente ganha porque custa R$ 0,50, vende mais, a leitura é mais rápida, mas digamos que de concorrente que vá mexer, causar na política local, ainda é o A Tarde. Por exemplo, na Assembleia Legislativa, nas Câmaras dos Vereadores ou fora da Bahia, quando se pensa em política se pensa em A Tarde. Então eu acho que nessa concorrência do leitor, uma concorrência que não é comercial, de influência na capital, o A Tarde é mais influente. Mas comercial o Correio* vende muito mais, porque atinge um público que quer ler, que quer passar o tempo e tem um preço mais acessível. Nessa concorrência empresarial o Correio*está na frente mesmo.

Você falou que o Correio* atinge um público que quer ler, passar o tempo. Então o Correio* é um jornal mais voltado para o entretenimento?
Também. Ele tem um cunho social, que é perceptível, mas é voltado para o entretenimento por essa leitura menos aprofundada nos assuntos.

Você diria então que o Correio* é um jornal popular?
É um jornal popular, mas não é um jornal popularesco como o Massa. O Massa já tem um cunho muito mais popularesco, digamos assim. Ele quer o leitor pelo sensacionalismo de fato. Embora tenha um cunho social também. Se você folhear o jornal, você vai ver que tem página de serviços, tem espaços para desempregados, para procurar emprego, tem espaço que faz um trabalho comunitário bacana. Mas as manchetes são para atrair o leitor pelo sensacionalismo, pela sensação. Como por exemplo, hoje a manchete foi “Vovô tarado transa com animal”. Isso vai atrair a leitura desse leitor, desse público que ele procura. 

Qual sua opinião sobre o Tribuna da Bahia?
O Tribuna da Bahia, como vocês sabem, é um jornal que vive na linha bamba. Um jornal que não tem dinheiro nenhum e é patrocinado. É de dois sócios que não tem o menor interesse de transformar o jornal em um veículo de comunicação de verdade, com suporte técnico para repórter e etc. Eles querem levar aquele tradicionalismo do Tribuna da Bahia.

Quando você escreve a matéria para o A Tarde você pensa no interesse público ou no interesse do público?
Eu penso no interesse do público partindo do meu ponto de vista. Eu tento me enxergar como público. Eu me coloco sempre no lugar do público para escrever.

Essa questão de você se colocar no lugar do público é uma interpretação sua ou uma orientação do jornal?
É interpretação minha como jornalista. Quando eu fiz jornalismo tinha uma ideologia, eu achava que com o jornalismo a gente podia mudar o mundo, mostrar o buraco, mostrar que a prefeitura não faz nada na cidade. Se eu for cobrir um evento que o público está reclamando e a fonte oficial fala que não é nada disso, eu vou ouvir a fonte oficial, mas eu sou público e sei que a fonte oficial não está falando a verdade. Então quando eu falo da visão do público, é nesse sentido de me colocar no lugar do público mesmo. Por isso que eu acho que presto um serviço público. Eu acho que escrevo para o público e não para o ideal do jornal. Claro que os jornais sempre tentam interferir. Mas o A Tarde tem essa independência política, tem esse respeito. Ele não está preso a políticos como o Correio*, que é de ACM Neto. Se vocês folhearem o Correio* nesses últimos dias, vocês irão ver que cada dia tem uma matéria “ACM Neto e sua vice não sei aonde”. Já o A Tarde não faz campanha política para ninguém, ele está preso a empreendimentos imobiliários. Não tem nenhum político envolvido dentro do jornal A Tarde.

Qual é a sua concepção de valores-notícia?
Eu sou um jornalista muito intuitivo. E como já falei, eu me coloco sempre no lugar do público. Se eu recebo duas pautas, por exemplo, uma é “O Ministério Público pede anulação do aumento da tarifa de ônibus” e a outra pauta é “Meningite mata mais na Bahia do que em qualquer outro estado no Brasil”, eu dou mais valor a primeira. Porque me afeta mais do que a meningite. Essa é uma questão muito intuitiva. Eu jamais pegaria uma matéria sensacionalista como “Homem morre com 10 facadas e penduraram a cabeça dele no poste” e daria um valor se tivesse a matéria da anulação da greve. É uma questão de ética mesmo, aquilo tudo que a gente aprende na faculdade. Mas claro que quando você entra em uma empresa você muda um pouquinho. 

Você é repórter do A Tarde mais seus textos também são publicados no Massa. Como por exemplo, a matéria da saída de 210 mil pessoas de Salvador no São João, em que seu texto também saiu no Massa, só que com algumas alterações. Isso te incomoda?
Até então nunca aconteceu uma modificação drástica que me desagradasse, como mudar para uma palavra vulgar que eu não escrevi no meu texto, isso não aconteceu, ainda não. Isso acontece nos títulos, mas nos textos não me lembro de ter acontecido. Nunca enxerguei como eu fazendo sensacionalismo porque a minha matéria está no Massa. Porque eu acho que o que escrevi para o A Tarde foi para o Massa com o mesmo cunho social que eu quis dar.

Quando você escreve a matéria para o A Tarde você sabe que ela também vai entrar no Massa?
Às vezes sim. Eu escrevo para o A Tarde e o editor do Massa edita. Ele puxa no sistema, modifica o título, para não ficar igual ao do A Tarde, coloca a matéria e assina o meu nome. Mas o Massa tem seus repórteres específicos. Assim como acontece de repórter do Massa fazer matéria para o A Tarde. O Massa é uma adaptação, é muita edição pra ser do jeito que é.

Como o público-alvo do A Tarde e do Massa são de classes sociais bem diferentes publicar um “mesmo” texto nesses dois veículos não gera uma espécie de conflito?
Não. Porque tem assuntos que são do interesse de todas as classes. Por exemplo, essa matéria do Ferry Boat: quem tem dinheiro, uma casa caríssima na Ilha, vai ter interesse de ler no A Tarde o melhor horário para sair é tal. E quem vai pra ilha de qualquer jeito vai querer saber quais os melhores horários, quantas pessoas vão. Essas questões de Mobilidade urbana, transporte, horários são do interesse de todas as classes. Seria conflituoso, por exemplo, se um crime horroroso do Massa saísse no A Tarde. Porque o público do A Tarde não quer mais ler sobre crime, prova disso é que não há editoria policial no A Tarde. De vez em quando sai uma notícia de polícia, mas não tem uma editoria policial. Você não vê mais “Fulaninho morreu assassinado com 10 tiros”. A não ser que seja um caso do tipo do diretor da Yoki, que repercutiu no Brasil inteiro. Aí não seria conflituoso, seria contraditório. Agora em relação à matéria de viagens, de número de passageiros, hora melhor de viajar, sair no A Tarde e no Massa eu acho que todos se interessam por isso. Talvez nesse período de São João quem vai viajar vai na sua Toyota ou na sua Brasília e todos provavelmente vão pegar a fila do Ferry Boat ou vão pegar a estrada.

Você recebe algum tipo de comissão por ter matérias publicadas no Massa?
Não, porque é um grupo. Eu trabalho no Grupo A Tarde. O Grupo A Tarde tem o Jornal Massa, o Jornal A Tarde, a Revista Muito, a Rádio A Tarde. Então é uma empresa só, com vários produtos. Você não está trabalhando para um produto. Você trabalha para uma empresa que tem vários produtos. Não importa em qual veículo saia a matéria. Porque o veículo é um produto da empresa e eu sou funcionário da empresa. Por um lado tem muita gente que acha que deveria cobrar, porque você está assinando duas vezes em dois veículos diferentes. Mas o jornalismo hoje é empresarial, querendo ou não sempre vai ser uma empresa, não é um blog independente. Quando eu falo que jornalismo é empresa eu estou sendo generalista demais. Infelizmente o jornalismo se tornou empresarial, mas ele ainda pode ser um jornalismo combativo independente. Mas aí você tem que arranjar outra forma de sobreviver.

Você acredita que o jornal A Tarde precisa passar por uma reformulação?
Com certeza. O A Tarde é uma empresa que tem 100 anos e nesse período ela é comandada pelos próprios donos, a família Simões. E a gente sabe que no mercado atual nenhuma empresa – do ponto de vista empresarial – sobrevive comandada pelos próprios donos. Existe toda uma questão familiar, de estrutura, enfim, ele precisa de uma reformulação empresarial, e talvez editorial para saber quem é o público-alvo, quem ele quer atingir, que tipo de serviço ele vai prestar parra a sociedade. Ele precisa de uma reformulação sim.

Essa reformulação já está prevista?
Acho que já está acontecendo, de certa forma, bem aos pouquinhos, mas já está acontecendo. Se você pegar uma manchete do A Tarde, por exemplo, de quatro meses atrás e analisar com a manchete de hoje, você vai ver que ela já está diferente. O jornal está voltando a ser mais combativo, mostrando os serviços sociais, sem ser sensacionalista, sem mostrar sangue, sem nada, mas está tendo uma mudança. 

A redução do número de páginas do jornal é reflexo dessa crise?
É reflexo da crise. Quanto mais dinheiro você tem para circular no jornal, mas páginas você tem, mais anúncios você vai ter. Mas como ele está nessa crise, tem muita gente que não está querendo anunciar. Está anunciando no Correio* porque ele está vendendo mais. Então em matéria de anúncio o Correio* é melhor. Anúncio reduz página, a verdade é essa. Hoje em dia jornalismo não existe sem publicidade.

Já aconteceu de uma matéria sua perder espaço por causa de uma publicidade nova? Qual a sua sensação quando isso acontece?
Isso acontece muito. Vou falar agora como um mero empregadinho. Eu sou um jornalista, sou um formador de opinião, tenho a minha intuição, mas às vezes tem uma matéria que eu acho que não tem finalidade nenhuma e aí surge um anúncio que cortou metade da minha matéria, eu digo “graças a Deus”. Tem vezes que eu quero muito escrever sobre determinado assunto aí eu me irrito. Depende. Eu tenho tanto para escrever. É muito relativo. Tem horas que você vai ficar muito irritado porque a publicidade vai tomar o seu espaço. Mas aí você fala “então tá...é isso que paga meu salário né?”.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

"Jornalista tem que desconfiar de todo mundo" | Cleidiana Ramos



Lara Pinheiro, Douglas Neves, Maria Virgínia Vieira





Clediana Ramos é oficialmente repórter especial do jornal A Tarde, mas desde novembro de 2011 está na chefia de reportagem da editoria de Cidade. Chegou ao A Tarde com 15 dias de formada e já vai completar 14 anos no jornal. Ela o considera sua escola: "Tudo o que eu aprendi, aprendi aqui".
Depois de um ano e meio no jornal, Cleidiana passou a integrar a editoria de domingo – anexa à de Cidade, mas com equipe própria. Foi lá que aprendeu a fazer matéria especial, e onde ficou até 2003, quando a editoria foi extinta. Foi então que o jornal passou por uma reforma feita por Ricardo Noblat, quando ela foi colocada em uma editoria piloto – a editoria de verão. Uma matéria criada para essa editoria acabou se tornando um caderno especial – Qual a sua cor? A vida e o mundo racista –, publicado no 20 de novembro e finalista do Prêmio de Imprensa Embratel em 2004. No ano passado, ele ganhou uma edição bilíngue (em inglês e português) que circulou em uma conferência da ONU feita em Salvador (Afro XXI - Encontro Íbero-americano do Ano Internacional dos Afrodescendentes, realizado entre 16 e 19 de novembro de 2011). Foi a primeira experiência do jornal com uma publicação desse tipo. 

Cleidiana é autora dos livros "O Caminho da Água Grande - Município de Iaçu e os entraves para o seu desenvolvimento" (Egba-1998) e "A Janela de Dona Ubaldina - Histórias sobre o município de Boa Vista do Tupim" (2004). É co-autora do livro "A Casa que Fala dos Olhos do Tempo da Nação Angolão Paquetan", organizado por Aristides Alves (Minc, 2010). 

Como é seu dia-a-dia?
É bem diferente. Antes eu trabalhava em reportagem, então era mais ou menos: sugerir pauta – como já estava como repórter especial, normalmente eu mesma trazia as minhas próprias pautas para o jornal. Eu tinha a experiência de fazer a pauta, de apuração e reportagem, e às vezes edição, porque eu já entregava pronto. Como já tinha experiência como editora, normalmente é assim. Agora, nesta função em que eu estou colaborando com o jornal, tenho um editor coordenador, Cláudio Bandeira, da editoria Salvador. Ele é quem trata desde o planejamento até o fechamento. Eu fico ali no meio-campo, para executar o planejamento. Eu chego de manhã, tem umas pautas que a gente sugere, ou ele sugere, constrói em parceria. Cabe a mim sedimentar essas pautas e distribuir para os repórteres, e acompanhar o que eles estão fazendo durante o dia. Eu acompanho também o que a gente chama de "aposta" – a matéria que vai na página A4, a página de abertura da editoria de Salvador. Eu faço essa essa ponte entre a reportagem e a secretaria de redação. Agora há pouco tivemos uma reunião [por volta de 11h, quando a entrevista foi feita], quando a gente apresenta o que tem e a secretaria faz uns ajustes. É uma reunião que envolve todos os editores. Os repórteres não participam porque eles já estão fora, produzindo. Às vezes a gente até corrige a rota aqui no telefone. Cada editoria do jornal tem essa mesma estrutura. Por volta das 16h, fazemos a reunião de "passar o bastão", como a gente brinca aqui.  Os editores chegam para o fechamento – aí já é uma reunião em que participa todo mundo, o grupo da manhã e o grupo da tarde, e a gente passa as coisas para eles: o que tem de aposta para aquele dia, etc, e também decidimos a capa. O que está pronto, o que vai ser manchete, o que precisa completar, se o editor precisa corrigir alguma coisa. A diferença da nossa editoria para as outras é que o editor-coordenador das outras trabalha pela manhã. No caso da nossa, chegou-se a um consenso de que era melhor ele trabalhar à tarde, porque ele tem mais chances de corrigir a rota. Às vezes a gente aposta em uma coisa agora de manhã, e daqui a pouco muda tudo.

Qual a linha editorial do jornal?
O jornal é praticamente a Constituição Federal. O jornal tem a linha de defender a dignidade da pessoa humana, a liberdade de expressão, os direitos básicos do cidadão, ou seja, respeitar a Carta de Direitos Humanos. Respeitar a Constituição brasileira, e aqui se inclui todo o respeito a direitos, à pluralidade. No caso específico do A Tarde, por conta da sua história, de uma empresa completamente centenária, é a defesa dos interesses públicos da Bahia. O jornal faz muito jus a isso, de ter essa identidade com a Bahia. A Tarde já nasceu fazendo campanhas públicas em defesa da Bahia – uma das inovações do jornal na fundação foi essa. Por exemplo: fazer campanha para construir a estátua de Castro Alves; fazer campanha para a nova sede da Biblioteca Pública lá nos Barris – isso foi uma campanha que A Tarde fez, porque a Biblioteca tinha sido queimada no bombardeio de Salvador, em 1902. Essa travessia Mar Grande-Salvador, que acontece até hoje, foi uma campanha do A Tarde. Até a eleição de Marta Rocha como Miss Bahia foi o A Tarde. O A Tarde tem muito essa linha que está atrelada à imagem da Bahia, da defesa da Bahia. Mesmo o que a gente considera essa Bahia imaginária, mas A Tarde tem isso muito arraigado. 

Você considera que o A Tarde é um jornal de referência aqui, como por exemplo a Folha é em São Paulo? Que as pessoas, quando têm que se informar sobre a Bahia, escolhem ler o A Tarde?
É, continua sendo referência, porque é um jornal que vai fazer cem anos agora em outubro. Por mais que você tenha problemas de mercado, você pode discutir aumento, diminuição de tiragem, mas isso você não apaga de uma hora para a outra. É um jornal que tem cem anos, é natural que ele seja sempre lembrado.

Você acha que [fazer cem anos] traz mais credibilidade ao jornal?
Sim, a gente continua tendo essa coisa forte de credibilidade. Me parece que A Tarde tem duas facetas muito fortes nela, e que às vezes as pessoas confundem onde acaba uma e começa a outra. A Tarde é uma empresa jornalística, privada, tem proprietários, tem donos; mas tem aquela A Tarde que está no imaginário de muitos baianos, que é A Tarde instituição. Algumas pessoas não sabem o nome dos donos de A Tarde. Na cabeça delas, A Tarde é uma instituição, como o Ministério Público. Nos tempos de diminuição de quadro de funcionários, de pessoal, de todas as dificuldades que a gente está passando, que são públicas e notórias, a nós temos uma dificuldade enorme – é triste, às vezes – para ter estrutura para atender as pessoas que vêm aqui todo dia. E as pessoas vêm aqui não para atendimento jornalístico, mas sim resolver problemas – o problema do muro com o vizinho; problema porque ligou para a SUCOM e ela não foi atender a  uma solicitação, porque tem um buraco na rua. As pessoas confundem muito o problema que é público com o problema que é privado. Tem aquele problema que é público, de interesse público, que é da obrigação do jornal estar atento e aquele que é do meu interesse pessoal – elas imaginam que isso aqui é o PROCOM, que você comprou o eletrodoméstico, não entregaram, e as pessoas vêm aqui reclamar. 

Esse tipo de "problema" sairia no Massa!?
Sai, se envolver o interesse de uma quantidade considerável de pessoas – como sai no A Tarde também. Às vezes a gente pega aquele problema pessoal e vê se não é uma pauta de interesse público; mas o que eu digo é a coisa do atendimento. Nós temos, como todo jornal tem, canais de reclamação, de Fale com a Gente, etc. Mas as pessoas vêm aqui com a esperança de que nós vamos resolver.  Elas acham que A Tarde é um canal público mesmo, que resolve problemas, independente do que seja. Acontecem as situações mais loucas que você pode imaginar. Tem colegas mais antigos que já atenderam gente com soro aqui. Fugiu do hospital e veio bater aqui. São coisas assim loucas, mas que fazem parte dessa imagem que as pessoas têm na cabeça. Tem muita gente que se surpreende quando ouve que A Tarde tem dono. 
Quem você considera o público leitor do A Tarde?
É muito complicado isso. Eu discordo dessa loucura atual de você segmentar as pessoas em categorias. Em relação à informação isso é muito complicado. Eu posso estar falando uma grande bobagem, porque não sou da área de pesquisa, não sou da área de marketing, mas acho, por empirismo, isso tudo muito relativo. Dizem que o público de A Tarde é o público A e B, que o público do Massa! é o público C e D, e por aí vai. Primeiro eu já começo questionando o que são as classes A e B de Salvador. Há cinco anos, eu fiz uma matéria para um dos cadernos da Consciência Negra, e Salvador tinha, segundo o IBGE, 10% da população que ganhava acima de cinco mil reais. Isso não é classe A. Cinco mil reais é classe média. Média média. Se você vai recortando, você vê: classe A é, digamos, quem tem um faturamento de 15 mil reais. De 10% você vai tirar quanto de Salvador? Eu conheço casos de pessoas que não têm nem o segundo grau completo e que leem A Tarde, e que não leriam o Massa!, como não leriam o Correio*. E que não leem o Correio* nessa nova formatação dele. Conheço pessoas que têm nível superior, moram no Itaigara, e que leem o Massa! ou leem o Correio*. Então você falar disso com um público completamente diverso e que tem interesses diversos é muito complicado. O que eu considero é que A Tarde tem, na minha opinião, um público mais ligado ao que a gente pode chamar de "a velha Bahia" – e isso independe de classe, do quanto a pessoa ganhe, do nível de instrução. São pessoas que estão preocupadas com o esvaziamento do cortejo do Dois de Julho, as pessoas que estão preocupadas com a perda que Salvador tem do ponto de vista da noção do patrimônio, com a Igreja do Rosário dos Pretos que não foi entregue no prazo que foi determinado; são pessoas que estão muito preocupadas com a poluição da Baía de Todos os Santos, por conta do que ela representa do ponto de vista simbólico para a cidade. Gente que está preocupada porque a maior parte dos estudantes da rede pública não sabe quem é Tomé de Souza; gente preocupada com a má qualidade do ensino; que está preocupada porque o maior hospital de traumas do estado não poder cumprir a função dele, que é atender trauma, mas tem que atender porque as pessoas vão para lá, por más condições de saúde e também por falta de informação, que ao invés de procurarem um posto de saúde procuram o HGE.  Eu acho que [o público leitor] são as pessoas que estão nesse patamar de informação, que não estão muito preocupadas com a informação imediata, que você consome e daqui a pouco esquece. Pessoas que estão preocupadas com uma informação mais aprofundada, que faz você pensar. Pessoas que estão interessadas em ler o jornal depois do almoço, em ter o que ler depois do almoço, não apenas folhear de manhã ou ler no ônibus, as pessoas que querem ter tempo para ler o jornal. Eu acho que esse é o público de A Tarde. Eu sou contra essa história de a gente dizer que tem um público. Eu vejo o público como é a Bahia, extremamente diversificada. É difícil você dizer: 'hoje o público de A Tarde é X. A pessoa tem essas características.' Muito difícil. Por mais que se tente, a gente nunca vai conseguir dimensionar. Aliás, é um jornal que chega na Bahia toda. Chega, às vezes com atraso, mas chega. É um jornal que chega em Barra da Estiva. Que chega lá em Floresta Azul. Chega em Barreiras, onde as pessoas têm muito mais aproximação com Goiânia e Brasília do que com Salvador. Inclusive a gente tem uma sucursal lá, a sucursal Oeste. É um jornal tão diverso quanto a Bahia, não tem um público específico.
Questões estruturais e de tempo interferem na construção da notícia? Por exemplo, vocês têm dois acontecimentos importantes em Barreiras, mas só um repórter. E aí?
A gente prioriza o que for mais forte. Inclusive, as sucursais têm um problema, porque elas atendem o jornal todo. Elas não fazem matéria só para a editoria de Bahia. Fazem matéria para Política, Economia. Tem matérias de lá que saem em Política. Se um prefeito é cassado, é mais negócio sair em Política. Se a gente tem algo importante em Itabuna, a gente coloca o pessoal de Itabuna para cobrir e deixa pessoal das outras sucursais com as sub-apostas. É uma coisa de administrar mesmo. 
E quais são os critérios de noticiabilidade?
A primeira pergunta que a gente faz é: a quantas pessoas interessa isso? Qual a quantidade de pessoas que vão ser impactadas por essa informação? Depois a gente avalia as coisas que saem da realidade. É aquela velha história: o cachorro que mordeu o próprio rabo não é notícia, mas se o homem mordeu o rabo do cachorro, aí é notícia. O inusitado. Mas geralmente é o interesse público. O primeiro critério de avaliação para a gente é o que é de interesse público. O que afeta o maior número de pessoas possível.

No domingo (10/06), vocês publicaram uma matéria, de capa, sobre a união estável entre homossexuais ("Avanços ampliam inclusão de vítimas de preconceitos"). Esse assunto não foi abordado em nenhum dos outros jornais (Correio*, Tribuna da Bahia, Massa!) naquele dia. Como é que vocês decidem que ele "merece" entrar na capa e na página A4, uma das mais importantes do jornal?
A gente, nesse novo modelo de jornalismo, tem que pensar em matérias diferentes. Matérias para oferecer ao público da gente uma coisa diferenciada. Adianta você abrir o jornal no dia seguinte e a manchete do jornal ser que o Bahia ganhou do Sport por 2 a 1? Adianta o jornal investir nisso se no outro dia todo mundo já soube? Todo mundo já viu na televisão. O que a gente procura aqui é dar a mesma matéria, que é interessante para todo mundo, só que por outro viés. No jornal de domingo, a gente tentou fazer exatamente isso: a gente tenta fazer a edição de domingo um jornal mais leve, porque a gente passa a semana inteira falando de problema. A gente imagina que o nosso leitor, depois de acordar às 10h da manhã e tomar café com a família, vai querer ler alguma coisa mais leve. Então a gente coloca essas matérias mais "frias", mas dentro de um contexto de Comportamento, etc.

Vocês têm alguma pesquisa de como foi a recepção da matéria? Vocês sabem se o público foi receptivo à ideia [da união estável entre homossexuais]?
Não, a gente não tem feedback. É impressionante. Primeiro, a gente sabe como tratar determinados temas. A gente tem um compromisso de não estereotipar, é uma matéria completamente equilibrada. A gente não faz apologia em nenhum momento. A gente só quer mostrar que o direito da família está mudando. As mudanças que estão sendo introduzidas no Direito estão transformando as famílias. Ali você viu que tinha um casal de homens que ratificou a união e um casal de mulheres que adotou duas meninas. E é impressionante, a gente não recebeu uma ligação contra. Significa que o público da gente, que todo mundo diz que é conservador – porque todo mundo diz que A Tarde é um jornal conservador – significa que é um conservador maravilhoso. Não gritou, nem ligou pra cá, nem entupiu caixa de e-mail. O termômetro que a gente tem, embora a gente não faça uma apuração, é esse: quando não há gritaria nem carga de protesto. Aí a gente sabe que não mexeu com nenhum tabu.

O relacionamento do jornalista com suas fontes foi colocado em xeque recentemente por causa da ligação de Policarpo Jr. com Cachoeira. De que forma você avalia a relação do profissional com a fonte para que não seja prejudicial? É válida essa aliança com qualquer fonte?
Relacionamento de repórter e fonte é um relacionamento de confiança. É um relacionamento de confiança para você buscar informação. Para você cometer crime é outra história, que é o caso em questão. Você não está falando de viés normal, de apuração de notícia. Você está falando de um repórter que tem um relacionamento com uma pessoa extremamente controvertida, que está à margem da lei – não é à toa que está preso – e que é ainda mais complicado, porque você está usando meios escusos para obter informações. Repórter tem que ter responsabilidade. Pode ter uma história completamente polêmica com a qual A Tarde não tenha nada a ver, que A Tarde não tenha culpa nenhuma, porque ela confiou no seu profissional. Um exemplo fictício, para você entender: seu profissional não foi correto com seu jornal. E o jornal pode não ser correto com você. O jornal não é correto com você, por exemplo, se ele te obrigar a mentir por conta de um interesse dele. Nenhum de nós é ingênuo. Nem a gente que entra, desde o primeiro dia de faculdade, nenhum de nós acha que você vai entrar em um jornal comercial, uma empresa privada, e que você vai escrever o que você quer. É aquela velha máxima de Assis Chateaubriand: "quer escrever o que você quer, funde um jornal." Se você quer escrever o que você quer, você tem que fundar sua própria empresa. Isso inclusive é perigoso, porque a sua visão de mundo não é a visão de todo mundo. É complicado você querer impor o seu ponto de vista. Você e a empresa têm determinadas responsabilidades. O relacionamento que você tem com a fonte é pessoal, a empresa não se intromete na sua fonte. É como você consegue a sua informação. No tratamento da informação é que entra um aspecto extremamente relevante, que é o aspecto moral. Qual é o uso que você faz dessa informação, onde você conseguiu essa informação. Para mim, fonte confiável é fonte que se identifica. Essa história de 'eu vou te dar uma bomba, mas não pode dizer que foi eu que falei' eu sempre fico com um pé atrás. Se a pessoa não está aparecendo, ela não está defendendo nenhum tipo de interesse ou causa. Qual o interesse que ela tem em me dar essa informação? O que ela quer com isso? Ninguém faz caridade. Toda informação vem com um interesse por trás. Interesses mais diversos. Eu acho que a melhor coisa, em qualquer nível de atuação profissional no jornalismo, é a desconfiança. Infelizmente, tem que ser assim – tem que desconfiar de tudo e de todo mundo. Eu questiono muito essa coisa de você só ter fonte na polícia, por exemplo. De você escrever tudo o que o delegado te disse. E você não se preocupar em ouvir a pessoa que está sendo acusada. Eu evito colocar, por exemplo, matérias com título "Líder de tráfico em tal lugar". Eu não sei, eu não vi, o cara ainda vai ser julgado. Eu prefiro usar a palavra "suspeito de tráfico." Um episódio que aconteceu aqui: eu estava aqui de manhã e um repórter chegou animadíssimo: tinha ocorrido um assassinato em um bairro. Os moradores disseram que a polícia tinha cometido o assassinato, e a prova era um contracheque que eles tinham achado no local. Ele [o repórter] ficou animado, achou que era uma bomba. Eu perguntei a ele: 'você viu o contracheque no local do crime?' 'Não, os moradores que me entregaram'. Eu respondi: 'e quem te garante que o policial que foi lá, logo depois, não perdeu o contracheque? Pode ter caído do bolso.' Aí ele ficou meio assim. Eu falei que não estava fazendo o discurso da polícia, mas estava agindo como o advogado do diabo. A gente vai expor uma pessoa, dizer que esse cara foi lá, que participou do grupo de extermínio, só porque acharam o contracheque dele. 'Quem te garante que não plantaram esse contracheque lá? O contracheque estava lá quando você chegou?' 'Não, os moradores que disseram que acharam, e depois trouxeram.' 'Os moradores vão aparecer pra dizer isso?' 'Não.'  'E quem vai dizer?' 'Eles não querem dizer porque têm medo.'  'E estão com razão. Porque vão acusar um PM, que tanto pode ser um cara correto, como pode não ser. ' Digamos que a gente pegue o contracheque e coloque no jornal. Esse cara pode ter uma ficha corridíssima, e se você quiser pode checar isso. Por outro lado, mesmo que ele tenha passagem na Corregedoria, não significa que ele estava lá. A gente não tem prova. Eu disse a ele que não é porque as pessoas moram em um lugar desabonado pelo Estado que elas são idôneas. Quem garante a você [o repórter] que a pessoa que te entregou o contracheque não foi mandada lá pelo tráfico do lugar para apresentar essa versão? A gente tem que ser desconfiado. Depois ele admitiu que eu tinha razão. Em outra situação, o mesmo repórter foi cobrir uma rebelião em uma casa de custódia para pacientes com transtornos mentais. A polícia já havia controlado a rebelião. Quando ele chegou lá, um agente disse que a rebelião tinha acontecido porque dois detentos tinham degolado um outro. Eu fiz as mesmas perguntas para ele: 'você tem provas?' 'Não, o cara que falou.' 'E ele prova?' Ele [o repórter] perguntou ao presidente do sindicato e o presidente disse que não sabia de nada. Eu falei: 'mas o presidente do sindicato também pode estar fazendo o jogo do governo. Ou então ele não sabe.' Eu mandei que ele ligasse pro presidente do sindicato de novo, enquanto esperávamos outro colega, que estava mais acostumado a lidar com essas situações, chegar. Se o presidente do sindicato fizesse a denúncia, ótimo, mas ele [o repórter] não ia poder fazer. O presidente checou e disse que era verdade, e que ele assumia. A gente foi à delegacia do Bonfim, porque eles tinham que registrar, senão o corpo não entrava no IML. Quando a gente chegou na delegacia do Bonfim, estava lá. Quando a gente ligou para a Secretaria de Justiça, a gente tinha tudo. A gente tem que ter cuidado, tem que apurar.