quarta-feira, 30 de novembro de 2011

"A liberdade de imprensa é para servir ao público" | Márcia Gomes

Crislane Araújo, Emile Conceição e Émille Cerqueira


Márcia da Silva Gomes (que costuma assinar como Márcia Gomes) é natural do Rio de Janeiro, mas reside em Salvador há 18 anos. É formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ).

Sua trajetória profissional no Grupo A Tarde começou em 1994 quando foi contratada pelo jornal para ser revisora. Permaneceu no cargo até 1998. Após um ano se tornou a primeira repórter de informática do jornal. Nesse período ajudou a criar a editoria de informática do jornal, que hoje não existe mais.

Saiu da empresa em 1998. Continuou trabalhando com jornalismo, mais precisamente com assessoria de imprensa, hora em empresas de assessoria, hora com assessoria própria.

Voltou ao jornal A Tarde em 2005 como repórter. Em outubro de 2007 foi promovida a editora de internacional, cargo em que ficou até outubro de 2010. Migrou para a editoria de Salvador, onde trabalhou de outubro de 2010 até maio de 2011. Em maio foi convidada para trabalhar com edição de Polícia no Massa!, onde se encontra agora.


Durante o tempo em que trabalhou para o Grupo A Tarde, quais foram mudanças conseguiu visualizar na rotina produtiva?
Olha, quando eu entrei da segunda vez em 2005, eu passei pela transição do programa que a gente usa na redação que agora é o GN3, que é um programa mais fácil, mais prático, dá mais agilidade da gente trabalhar, tanto repórter, como editor. Eu observei que nós tivemos uma integração maior das mídias: do on-line (o Portal), o mobi, também da TV on-line, que nós também estamos trabalhando bem integrados. A rádio, ultimamente eu não vou muito [até lá], mas antes quando eu era editora do Internacional no A Tarde, eu trabalhava mais conectada com o pessoal da rádio. Sobretudo na época das eleições dos Estados Unidos quando Barack Obama ganhou. Geralmente, toda dia eu descia para comentar a edição da noite anterior, ou sobre o que eu ia editar no dia seguinte. E também com a entrada do Massa!, nós tivemos que aprender a trabalhar de forma integrada. Os repórteres do Massa! Quando vão para a rua, trazem material para ser utilizado pelos repórteres do A Tarde e vice-versa. Nós aproveitamos o material deles e fazemos uma maquiagem. A linguagem do Massa! é diferente da linguagem do A Tarde. O repórter do A Tarde tem um texto mais, não que seja sisudo, mas um texto mais sério. No Massa!, nós tentamos usar uma linguagem mais popular, leve, muitas vezes até brincalhona. Os repórteres do Massa! quando vão escrever diretamente para o A Tarde, já sabem como vão escrever, quando eles deixam para o editor, nós também já sabemos como vamos transformar essa linguagem na hora que estamos fazendo a edição.
Basicamente, as mudanças principais foram essas.

     E por que é que existe a diferença de linguagem entre um jornal e outro?
Porque são dois públicos diferentes. O público do Massa! pertence às camadas mais populares. É um público com uma expectativa de informação diferente. Elas querem outro tipo de informação, ou melhor, elas não querem outro tipo de informação, na verdade elas querem a informação num formato diferente. E muitas vezes, o A Tarde, por conta do seu formato, não é que não consiga informar, mas não atrai o leitor como o Massa! faz. Por exemplo: uma matéria sobre uma feira de móveis populares em Mata Escura. O leitor do A Tarde mora na Graça, na Barra, na Ondina, na Pituba... Ele certamente não vai se interessar por esse tipo de matéria, mas o leitor do Massa! vai. É uma matéria direcionada para esse público, que tem uma renda pequena, de um salário mínimo. 
                                                                                                                                                              
Então, quando se escreve pro Massa! ou pro A Tarde já se escreve pensando no público.
Claro. Isso em qualquer veículo de comunicação. O público interfere na construção. É um canal de comunicação com o leitor. As pessoas não só inspiram a criação de pautas, como também elas ligam para cá e dão sugestão de pauta mesmo, como manifestações, por exemplo. O A Tarde também cobre esse tipo de coisa. Existe essa comunicação entre veículo e leitor o tempo inteiro. As pessoas ligam, mandam e-mails, falam com os repórteres nas ruas, no momento das entrevistas, a fonte sugere pautas, ou fala alguma coisa que faz o repórter pensar numa pauta. Não é uma coisa isolada, nós temos um canal de comunicação mesmo. Não só a gente como qualquer veículo.

Então vocês trabalham com o interesse do público, não com o interesse público?
Não, claro que não. A liberdade de imprensa é para servir ao público. O objetivo é esse.

Você já participou da apuração de um fato, desenvolveu a notícia, e sua matéria não foi publicada?
Já! Eu não vou dizer que minha matéria foi censurada. Mas os motivos são vários. Nesse jornal eu nunca tive essa experiência, muito pelo contrário. Já fiz matérias bastantes polêmicas, já fui até ameaçada. Uma vez eu fiz uma matéria sobre os funcionários da Eternit, porque muitos morreram e outros estavam condenados a morrer de asbestose, que é um tipo de câncer que eles adquirem quando inalam as partículas do amianto. Eu fiz a matéria toda com uma promotora da parte de meio ambiente, super embasada em tudo que ela me passou. E a Eternit “pirou”. Foram duas páginas e até foi manchete. Teve um evento tempos depois e o presidente da Eternit veio de São Paulo pra cá e ele fez questão de saber quem era Márcia Gomes, querendo me intimidar porque a denúncia era grave. Mas a matéria estava tão bem cercada, tão bem argumentada que eles não conseguiram me processar.

Quais são os critérios utilizados para definir que uma matéria de outra cidade ou estado seja publicada no lugar de uma local?
Os critérios são interesse da população, o que a gente julga que é uma notícia importante. O que é de interesse comum, ainda que tenha acontecido em outro estado ou em outro país. Porque todo veículo de comunicação tem a editoria de internacional. Por exemplo, na Líbia recentemente o ditador foi morto. Isso está longe? Está! Mas isso tem reflexo no mundo inteiro, porque mexe com a economia internacional, com a política internacional. Então o critério é o que a gente julga ser de interesse comum.

Quais são os concorrentes do Massa!?
Eu acho que o Massa! não tem concorrente. Não concorre com o A Tarde porque o público é diferente. Não concorre com o Correio* porque o Correio* não é um jornal popular. O Massa! é o primeiro jornal 100% popular de Salvador. O Correio* é um jornal com formato de popular, mas com um conteúdo parecido com o de um jornal como o A Tarde, ele é um ser híbrido. Tem o preço bastante acessível, a linguagem às vezes é popular e às vezes não é. Então o Massa! não tem concorrente.

Quais os tipos de ocorrências que você acha mais difíceis de serem apuradas?
Eu acho que tudo que envolve a emoção, pra quem tem um pouco dela no coração é mais difícil de cobrir. Se você vai apurar um deslizamento de terra que você sabe que tem 15 crianças soterradas, eu acho que é difícil de cobrir, porque tem que fazer aquilo, mas a qualquer momento vão sair os corpos dali debaixo e você tem que ver. Ou então uma situação como aquela do rapaz que entrou na escola no Rio de Janeiro e matou várias crianças. Quando você convive com a dor do outro eu acho muito difícil, porque você tem que ser profissional, tem que ser frio. Não tem dificuldade pra mim de ter que falar com fonte, porque fonte inatingível não existe. Se você tiver jogo de cintura você consegue chegar em todo mundo. Você tem que ser inteligente para conseguir falar, não tem dificuldade.

Você acha que as campanhas publicitárias publicadas no jornal atrapalham o seu trabalho?
Eu tinha um colega que costumava dizer que jornal é um bando de publicidade com notícias em volta. Às vezes a gente tem essa sensação mesmo. Por que quando a gente faz jornalismo a gente tem as nossas ideologias, os nossos princípios. A gente quer falar da verdade, a gente quer defender os injustiçados, os que sofrem. E se esquece quando vai trabalhar numa empresa, que é uma empresa. O objetivo de toda empresa é qual? Lucro. É o dinheiro. A gente tem que conviver com a invasão de anúncios. Às vezes o anúncio cai. Você está com a página programada, e o anúncio cai nove horas da noite. Faz o que? Desmantela e refaz tudo. Senão eu não ganho meu dinheiro. Não entrem na faculdade achando que a publicidade é o grande vilão da história. Se não tiver publicidade o jornal não sai.

É de conhecimento que o A Tarde possui sucursais em outras cidades. Quais são no momento?
Barreiras, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Santo Antônio de Jesus, Itabuna, Juazeiro e Eunápolis.

Vocês utilizam com frequência as matérias de sucursais?
Todo dia. E o repórter de sucursal tem uma característica diferente. Como ele está na sucursal, ele faz matéria de política, economia, polícia, tudo. Ele é um especialista em tudo.

Quando acontece alguma coisa em cidades que não tem sucursal?
Desloca a mais próxima. Por exemplo, Amélia Rodrigues não tem sucursal, tem em Feira. Aí a repórter de Feira cobre Amélia. Tem um raio, Vitória da Conquista tem sucursal, Jequié não tem, aí Juscelino de Vitória da Conquista vai pra lá.

O deslocamento sempre é possível?
Dependendo da urgência, tem as prioridades. Por exemplo, digamos que aconteçam três coisas em torno de Vitória da Conquista, Juscelino não vai ter como estar nos três lugares ao mesmo tempo. Ou vai escolher o que é mais importante ou manda alguém daqui. Por que a gente também viaja daqui, eu já fui fazer muita matéria no interior. Tem os esquemas. Às vezes dá pra você se programar com antecedência, às vezes não dá. Às vezes as coisas acontecem da noite pro dia. O repórter entra de manhã e fica sabendo que duas horas da tarde ele vai viajar pra Bom Jesus da Lapa. 

"Eu imagino que a função do jornalista é ampliar a capacidade de visão das pessoas" | Tássia Correia.


Cátia Aragão, Ítalo Richard e Simone Melo



Tássia Correia, 25 anos, é repórter da editoria Local do jornal A Tarde há um ano. Começou como estagiária na Agência A Tarde. Circulou, ainda com a mesma função, pelas editorias de Economia e Política por dois anos. Depois de formada, Tássia trabalhou como freelancer até ser contratada pelo jornal em 2010.

Como você poderia definir a linha editorial do A Tarde? 
A linha editorial do jornal foi motivo de muita discussão no ano passado, nós passamos por uma série de questionamentos com relação à linha editorial e à produção editorial, tanto sobre o que o jornal queria da gente como sobre se atendia o que estava sendo produzido. A linha editorial exatamente ainda é uma incógnita. O que sabemos são algumas indicações que o jornal passa para nós a respeito do público que eles querem atingir. Um público A e B, com um jornal mais voltado para serviços. Segundo o que foi proposto era que não fosse baseado apenas em denúncias, mas em propostas. Isso é o que foi apresentado para nós nesse processo.

Qual o concorrente direto do A Tarde? 
O jornal que disputa a mesma pauta com a gente é o Correio. Na diária, por exemplo, se sair uma matéria minha factual que provavelmente o Correio também fez, geralmente a gente lê o Correio para ver o que fizeram, lê se possível também Tribuna, porém mais especificamente o Correio. Nosso concorrente direto é o Correio.

Você já deixou de cobrir um acontecimento para cobrir outro que estava sendo coberto pela concorrência? 
Não. É mais fácil o jornal acrescentar alguma pauta importante, porque o Correio também vai cobrir. Se aparecer no site do Correio, do A Tarde ou em outros blogs de notícia, a pauta é acrescentada. Dificilmente o jornal retira uma pauta. Mesmo porque se o outro veículo está cobrindo é mais uma responsabilidade que a gente o faça.

Algumas pesquisas mostram que o Correio vem abrindo vantagem sobre o A Tarde em número de leitores. Você considera que esse dado possa interferir na linha editorial do jornal?
Repórter não opina muito sobre a linha editorial. Seria mais uma pergunta a se fazer a chefia, porque, para nós jornalistas, a concorrência direta não influencia tanto no que se refere à linha editorial. Nós seguimos o que os chefes orientam.

O Massa! Seria uma resposta ao avanço do Correio? [Nesse momento, Fábio Bittencourt ,repórter doS jornais A Tarde e Massa!, interrompe a entrevista e opina “Apesar da concorrência, os dois jornais têm propostas diferentes”.] É como eu falei, uma coisa é você ser repórter, outra é ser Chefe de Redação, ou dono do jornal, são coisas bem diferentes. Se a criação do Massa! responde ao Correio ou não, só quem pode dizer são os donos do jornal. Particularmente, nós sabemos que o Massa! tem uma proposta muito diferente do Correio, inclusive as pesquisas que nos foram apresentadas mostravam que eles trabalhavam com públicos bem diferentes. Mas se é para atender à concorrência, é mais uma resposta comercial do que uma resposta da reportagem.

Você considera como essencial o uso de imagens nas reportagens?
Aqui é quase uma exigência que você tenha sempre imagens para a matéria. Uma das definições é tentar trazer pelo menos uma para ilustrar. O jornal sempre tem uma previsão de imagens. A quantidade de imagens a serem usadas é mais uma decisão do editor do que do repórter. É claro que pode haver diálogo. É muito possível que se sua matéria não rendeu tanto, o editor dê maior destaque para uma matéria que rendeu mais.

Já aconteceu de você apurar algum fato e ele não ser publicado? 
Ocorre muita coisa.A gente pode apurar e no final das contas não se tornar um fato tão importante para a publicação. Por exemplo, você descobre que houve um incêndio em algum lugar. A primeira informação que chega é que tiveram muitas vítimas. Depois, na apuração, se descobre que, na verdade, não houve nenhum ferido. Foi algo muito isolado. Então, a matéria acaba não saindo. Comigo nunca aconteceu de apurar um acontecimento e ele não ser publicado.

Nesse processo de apuração como você identifica se a ocorrência é verdadeira? Quais fontes são recorridas? 
Depende muito do fato. Existem pautas diversas, desde um incêndio até uma denúncia de fraude em licitação, por exemplo. Então, dependendo da notícia vai desenvolver um percurso de apuração. Se for um incêndio, o ideal é confirmar com os bombeiros, moradores, vizinhos, ligar para Codesal. Enfim, existem vários caminhos para trilhar. Se for uma fraude, ou algo parecido, o caminho é completamente diferente. Você tem como investigar isso com documentos, com pessoas ligadas ao caso. A notícia é que vai dizer o caminho da apuração.

Quais são os maiores impedimentos estruturais e organizacionais na cobertura dos fatos no interior do estado? Como o jornalista e o veículo conseguem driblar essas dificuldades?
A editoria de Local é responsável por Salvador e Região Metropolitana. Teoricamente, nós não atuamos no interior do Estado. Então, para mim a dificuldade maior seria alguma cidade da Região Metropolitana. Hoje com a internet e com o telefone facilita muito, porque você tem como checar alguns dados para ver se vale a pena ir até o local. Aqui na Região Metropolitana de Salvador, acontecendo alguma coisa, nós temos condições de ir. Fora daqui só quem pode falar melhor é o editor de Bahia, que lida diretamente com isso. O A Tarde tem sucursais em algumas cidades do interior e quem gerencia essaa cobertura é o editor de Bahia.

Você tem ideia de quantas sucursais o jornal possui?
Até onde eu lembro, eram quatro sucursais.

Você pensa no público no momento em que escreve uma matéria para o A Tarde? E que público seria esse? 
Inclusive é um pedido da chefia de redação que você pense no público do jornal. Quando você escreve, a intenção é que seja para o público morador de Salvador, que eles chamam de classe A e B. Além disso, um público que procure por um jornal que ofereça serviços e possa ajudar no seu dia a dia.

Existem pesquisas que comprovem se é realmente esse o público que o jornal atinge?
Quem poderia te informar é a Chefia de Redação. Eu sei que fazem pesquisas, mas para saber quais tipos de pesquisas, se são realmente para saber isso, eu não sei dizer. É porque a reportagem é só uma parte do jornal.

Como se dá a relação do jornalista com o editor no momento da escolha da reportagem? Como são as negociações? Existem muitas concessões da parte do jornalista?
É mais um diálogo. Existem duas formas de você fazer a notícia, geralmente quem trabalha pela manhã com ronda, deixa a matéria pronta e vai embora. O editor pega essa reportagem e faz as adequações necessárias. Existe também o contato por telefone, se houver alguma dúvida ou modificação muito grave a fazer. Você pode ser acionado por telefone a qualquer momento. Porque se o editor tiver alguma dúvida, o mais indicado é que ele fale com o repórter. Sempre que houve alguma modificação no meu texto, o editor me ligou para comentar, discutir e tirar dúvida. Geralmente, o que acontece é um diálogo nesse sentido. Mas, existem concessões dos dois lados, tanto o repórter pode argumentar a favor de algum pensamento, como, por exemplo, achar que uma reportagem prevista para ser pequena mereça sair uma matéria maior, ou o contrário. O editor também pode entrar nesse diálogo e considerar que a forma de abordagem que você fez foi incompleta, que você deve apurar mais ou que precise ouvir uma pessoa específica. Tem sempre um diálogo, é um processo mesmo de argumentação.

Como é a sua rotina produtiva?
A rotina produtiva do jornal é algo engraçado. Depende muito dos outros repórteres. Até a semana passada, por exemplo, eu estava somente como repórter de Local. Chegava às 10 horas, e recebia, geralmente, uma pauta do dia e uma pauta especial. Na segunda-feira estão começando as pautas. Hoje [segunda-feira, dia da entrevista], por exemplo, eu peguei novas pautas, todas que irei conduzir durante essa semana. A primeira coisa que o jornalista faz é conversar com seu editor para saber o que ele espera da pauta. Trocar fontes, perguntar se conhece alguém que possa ajudar, trocar telefones. Depois o fazemos uma pesquisa na internet para buscar artigos, acionar matérias anteriores que já tenham sido feitas sobre o assunto. Se a pauta for do dia, você já tem que ir escrevendo, procurar o editor para desenhar a página, pensar mais ou menos como ela vai ser, se terá ou não imagem, serviço, e já colocar na página. Se for uma matéria especial, eu prefiro ficar com um dia só para a escrita, não misturar com a apuração, mas depende muito de cada repórter. Essa semana como muitos repórteres tiraram férias eu precisei mudar da reportagem diária e agora estou pegando só especiais, estou ficando com dois especiais por semana, a partir daí eu vou organizando a apuração das duas ao mesmo tempo.

Qual foi a matéria que você mais gostou de cobrir?
Eu fiz uma matéria que particularmente gostei muito, foi sobre a atuação de grupos de jovens em shoppings centers daqui de Salvador [“Bonde de jovens invadem shoppings”]. Tem mais ou menos dois meses que foi publicada. Gostei muito porque tive um tempo razoável para fazê-la e consegui entrevistar todas as pessoas que eu queria para falar sobre aquele assunto. Acredito que o resultado da matéria depende muito da apuração. Quando a apuração é completa e rende, a escrita flui de uma forma mais calma. Às vezes você fica ressentido por não ter ouvido alguém para aquela reportagem, de não ter encontrado um pesquisador para comentar sobre o assunto. Nessa matéria, eu consegui falar com todo mundo, inclusive com os meninos que faziam parte desses grupos, chamados bondes.

Então, a quantidade de fontes influencia na qualidade da matéria?
Não a quantidade, mas fontes qualificadas para falar sobre o assunto, pessoas que pesquisaram aquilo, que viveram a situação. Na ocasião daquela reportagem, eu consegui falar com muitas fontes, não no sentido de quantidade, mas de qualidade. Todas as pessoas que poderiam contribuir com o assunto, personagens.

O fator tempo seria um determinante para a qualidade da matéria, já que o jornalista vive sob pressão do tempo?
Depende da matéria. Eu já fiz reportagem de um dia e consegui fluir a matéria completa. Existem outras que demandam mais tempo. É o que a gente diferencia de uma reportagem factual para uma especial. Às vezes, com o factual você consegue em poucas horas falar com todo mundo que está envolvido naquela situação e escrever uma matéria bem interessante que responde completamente. Inclusive teve uma reportagem do interior, em Boipeba, bem distante daqui, que eu consegui falar com praticamente todos os envolvidos na história. Nesse caso, provavelmente por sorte. Se eu tivesse mais tempo, a matéria ficaria da mesma forma. Mas, não é em toda matéria que isso acontece. Essa em específico, a pauta chegou até mim. A fonte já tinha ligado para o jornal sugerindo a matéria, ela já estava comigo. Então não tive dificuldade, eu não fui atrás da matéria, foi ela que veio até mim.

Quando você escreve pensa em interesse público ou interesse do público?
É muito relativo saber qual é o interesse público e qual é o interesse do público. São duas incógnitas na verdade. São todas suposições que você faz de qual é o grande interesse público e qual é o grande interesse do público. Acho que nem o público sabe diferenciar muito bem entre o seu interesse particular enquanto cidadão e o interesse da sociedade brasileira. Eu escrevo com o foco em tentar mostrar o que está acontecendo. Se vai ser o interesse do público ou se vai ser o interesse público, às vezes, varia. Às vezes, você faz uma matéria que talvez não seja de tanto interesse público, uma comoção nacional, mas que tem um apelo forte para esse público daqui. Por exemplo, às vezes, ocorre de você precisar falar de uma exposição que vai acontecer. Eu já fiz matérias que envolvem decoração, coisas assim. Eu, particularmente, não sei dizer qual é o interesse público e qual é o interesse do público. Não tenho essa resposta.

Como se decide, dentro da redação, que um acontecimento ou um fato vai se tornar noticiável?
A gente sugere, como repórter. Muitas coisas acontecem e a gente já recebe a indicação, ‘você vai fazer isso’. Algumas coisas, nós sugerimos, mas a decisão, no final das contas, é da edição. Quer dizer, da edição em negociação com a chefia de Redação. Muitas vezes, você sugere uma matéria, e o editor acha que essa matéria tem mais a ver com outra editoria. Ou acha que não é tão relevante quanto você imaginou. É mais uma decisão da edição.

Quais critérios de noticiabilidade são recorrentes?
O editor pode opinar um pouco mais sobre os critérios de noticiabilidade, porque ele tem uma visão geral da edição. É ele que sabe tudo que vai sair. Algumas pessoas até comentam, quando morre Michael Jackson, deve ser muito triste qualquer outra pessoa morrer nessa mesma época, porque praticamente não será noticiada. Então, depende muito do que acontece. E só quem tem essa visão é do editor para cima. Não é uma coisa que eu tenho como responder. Talvez, seria interessante que vocês conversassem com os editores. São eles que escolhem diariamente qual é a notícia que vai ter mais visibilidade. Eu posso dizer que a minha matéria é a melhor do dia, mas eu não sei que o meu colega está fazendo outra que também é a melhor do dia.

Então chega a haver uma concorrência entre os jornalistas?
Não chega a ser uma concorrência, porque não é uma disputa pela mesma coisa. Pode ser, por exemplo, que essas duas matérias consigam sair com a mesma visibilidade. Então, eu não preciso derrubar a dele para a minha também sair. É mais um diálogo mesmo.

O título das matérias, geralmente, é o repórter que dá? Ou o editor acaba lendo a matéria e escreve um título segundo a linha do jornal?
Depende muito também. Tem repórter que já tem mais tempo de carreira, já tem mais experiência.Também tem repórteres que atuam na edição. Você pode deixar uma sugestão de título para o editor. Ele pode acatar ou não. Se você deixar em branco, o editor vai colocar.

O Massa! aproveita muito das matérias do A Tarde, mas os títulos são diferentes. Isso tem a ver com a linha editorial?
Quando o Massa! tem acesso à matéria, tem acesso ao sistema antes dela ir para pasta, antes de ser titulada. Então, quando o Massa! pega, ele ainda não sabe nem qual é o título que o editor do A Tarde vai dar geralmente. Ele puxa do original. Enfim, é como se dois editores puxassem a matéria e cada um decidisse um título. Se o repórter fizer uma sugestão, pode ser acatada. Agora, claro que a linha editorial do Massa! deve ter uma decisão sobre título diferente.

Qual o papel do jornalista na sociedade?
O papel do jornalismo vem sendo questionado diariamente, tanto na Bahia quanto mundialmente. Com minha profissão, fico sabendo de muitas coisas, que se eu não fosse jornalista eu não saberia. Então, eu imagino que a função do jornalista é ampliar a capacidade de visão das pessoas, para que elas possam perceber que existem coisas além dos seus alcances, e são muitas coisas que influenciam diariamente no nosso dia e a gente não faz nem ideia. Acho que a função do jornalista vem sendo questionada a cada dia. Para mim, é ampliar a possibilidade de visão das pessoas.

Você considera que o público confia no trabalho do jornalista?
Acho que eles não deveriam confiar cegamente em nada. Nem no jornalista. Acho que só na própria mãe. Todo mundo deve ter uma visão muito crítica sobre tudo que chega para si mesmo. Isso tem melhorado bastante, as pessoas têm aumentado o poder de visão crítica ou pelo menos de desconfiança. Eu não sei como era antes, mas hoje você já vê algumas pessoas que se negam a dar entrevista porque têm medo do que pode sair ou têm desconfiança sobre o setor, mas eu acho isso positivo. Justamente, uma das funções do jornalismo é despertar o espírito crítico nas pessoas, e se elas estão mais críticas, ótimo. Que sejam mais e mais.